Ficha Técnica

Direção: Ugo Giorgetti
Roteiro: Ugo Giorgetti
Elenco: Emilio de Mello, Julia Ianina, Geraldo Rodrigues, Otávio Augusto, Walmor Chagas, Thaia Perez, Eduardo Tornaghi, Gabriela Rabelo, Helio Cícero, Juliana Galdino, Julia Feldens, Andrea Tedesco, Danilo Grangheia, Francisco Carvalho
Fotografia: Walter Carvalho
Trilha Sonora: Mauro Giorgetti
Produção: Malu Oliveira
Distribuidora: Vinny Filmes
Classificação: 12 anos
Duração: 110 minutos
País: Brasil
Ano: 2012
 
Dois Lados da Sorte de Um Teatro Filmado
“Cara ou Coroa”, que inicialmente se chamaria “Corda Bamba” (entenda o porquê da mudança no vídeo da semana “Entrevistas Filme Cara ou Coroa”), apresenta-se como o novo filme do diretor Ugo Giorgetti (de “Boleiros”, “Festa”, “Sábado”, este último com Jô Soares). Antes de tudo, necessito de um preâmbulo explicativo, expondo argumentos da linha seguida. O Vertentes do Cinema tem uma predileção por filmes realistas, do método do diretor teatral russo Constantin Stanislavski, que consistia em trazer experiências reais do ator, diminuindo o hiato entre ficção e realidade. Podemos observar que nos filmes mudos, por exemplo, uma personagem apenas encontrava o lábio da outra, unicamente por selinho, de boca fechada. Isto era cinema da época, fantasia, uma projeção “politicamente correta”, mitigando os tabus e “tentando” transgredir de alguma forma, como um dos primeiros curtas-metragens que colocava um homem dançando com outro homem, apenas. Paralelamente, se compararmos com a época atual, perceberemos que os filmes buscam repetir os mesmos gestos da realidade, definindo assim quase como um gênero documental. Hoje há beijos de língua, sexo explícito, bem mais próximo do que acontece ao nosso redor. Os dois estilos antagônicos que citei aqui são interessantes e necessários.
Não critico o primeiro por representar um passado. O que implico é a vontade de realizadores de mesclar fantasia e realidade, destoa do natural, gerando o clichê e podendo despertar o patético. Voltando ao filme em questão aqui, “Cara ou Coroa” encontra-se no meio termo, tendendo à teatralidade, sendo obrigatória esta junção. A trama é uma homenagem ao teatro, que serve de pano de fundo para que se mostre o efeito da ditadura. E Ugo acertou em cheio em escalar Emílio de Melo, um ator basicamente de tablado, além dos afiados, como Julia Ianina, Geraldo Rodrigues, Otávio Augusto, Eduardo Tornaghi, Francisco Carvalho, entre outros, e a volta de Walmor Chagas. Então, a narrativa teatral, quase novela, é imprescindível à suavização romanciada do tema, percebido em tom de fábula pela narração de Paulo Betti. É como se fosse um teatro filmado, com um excelente roteiro, que lança frases de efeito questionando a moralidade e a ética política, e indicando a probabilidade de um possível futuro para nossa geração.
São Paulo, inverno de 1971. João Pedro (Emílio de Mello) é um diretor de teatro que está envolvido com os ensaios para uma nova peça “O Interrogatório”, de Peter Weiss. Nas folgas do trabalho ele recebe ocasionalmente a visita de um integrante do Partido Comunista, que não compreende as opções estéticas e políticas da peça, parcialmente financiada pelo partido. Paralelamente, Getúlio (Geraldo Rodrigues, o irmão evangélico no filme “Linha de Passe”, de Walter Salles) e a namorada Lilian (Júlia Ianina), ambos idealistas, decidem colaborar com a resistência à ditadura militar, abrigando dois fugitivos. Eles decidem escondê-los na casa do avô (Walmor Chagas) de Lilian, um militar da reserva.

Mas talvez a parte mais importante do filme seja a técnica. A fotografia de Walter Carvalho e a trilha sonora de Mauro Giorgetti unem-se de tão forma, que conseguem recriar uma atmosfera nostálgica da realidade e teatral (como a cena da chuva) ao mesmo tempo. É genial. Quando entrevistei o diretor, perguntei se havia referência ao filme “O último metrô”, de François Truffaut, ele disse que não. Mas ainda bato na mesma tecla, já que não parava de pensar no filme francês durante a exibição do nacional. E lembra e muito “Léo e Bia”, de Oswaldo Montenegro. É um filme despretensioso, bem cuidado, com diálogos incríveis, extremamente teatral (por propósito e necessidade) que deixa o espectador tenso na cadeira do cinema, pensando no que pode acontecer. Vale à pena assistir. Recomendo.

Entrevistas + Trailer

O Diretor
Ugo César Giorgetti nasceu em São Paulo, 1942. É um cineasta brasileiro.Trabalha como roteirista e diretor de filmes publicitários desde 1966, a princípio nas agências Alcântara Machado, C&N, Denison e Proeme, mais tarde nas produtoras Cia. de Cinema, Frame e Espiral.No início dos anos 1970 realizou dois curtas-metragens sobre aspectos da cidade de São Paulo. Seu primeiro longa, “Quebrando a Cara”, iniciado em 1977 mas lançado apenas em 1986, é um documentário, rodado em 16 mm, sobre a carreira e as lutas do boxeador Éder Jofre.”Jogo Duro”, primeiro longa de ficção de Giorgetti, conta a história de um grupo de marginalizados que disputam a ocupação de uma casa em bairro nobre de São Paulo.”Festa” recebeu o prêmio de Melhor Filme no Festival de Gramado de 1989. Em 2004, a Coleção Aplauso Cinema Brasil, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, publicou o volume “Ugo Giorgetti – o sonho intacto”, de Rosane Pavam. Desde 2006, Giorgetti assina uma coluna semanal sobre futebol nas edições de domingo do jornal O Estado de São Paulo.
Filmografia
1973: Bairro dos Campos Elísios
1975: Rua São Bento, 405, Prédio Martinelli (curta)
1977-1986: Quebrando a Cara (documentário)
1985: Jogo duro
1989: Festa
1995: Sábado
1998: Boleiros – Era uma vez o futebol
2000: Uma Outra Cidade
2002: O Príncipe
2004: Boleiros 2 – Vencedores e vencidos

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