Ficha Técnica
Direção: Robert Guédiguian
Roteiro: Robert Guédiguian, Jean-Louis Milesi, baseado em poema de Victor Hugo
Elenco: Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin, Gérard Meylan, Marilye Canto, Grégoire Leprince-Ringuet, Anaïs Demoustier, Adrien Jolivet, Robinson Stévenin, Karole Rocher
Fotografia: Pierre Milon
Música: Laurent Lafran
Montagem: Bernard Sasi
Produção: Malek Hamzaoui
Distribuidora: Imovision
Estúdio: Agat Films & Cie / Ex Nihilo / France 3 Cinéma / Les Films de la Belle de Mai
Duração: 107 minutos
País: França
Ano: 2011
COTAÇÃO: MUITO BOM
A opinião
“As Neves do Kilimanjaro” apresenta-se como o novo filme do diretor francês Robert Guédiguian (de “A Cidade Está Tranquila”, “Armênia”, “Marie-Jo e Seus Dois Amores”), conservando a característica questionadora e humanizada do cineasta e a narrativa francesa. A abordagem política é recorrente em seus filmes, que se explica por ser filho de um trabalhador nas docas de Marselha, e por isso ter se envolvido no Partido Comunista Francês. Quando digo que há reiteração da estética cinematográfica é por causa do elemento realista de cotidiano. As ações e diálogos buscam o estado natural de ser, o mais crível possível, dentro do gênero discutido, que também explora reações com drama e exagero, desejando aparentar uma máscara fictícia – e propositalmente perceptível ao espectador – por trás de uma fragilidade contrastada, pelo simples fato dos personagens saberem exatamente o que precisam fazer. Outra característica é a escalação de alguns atores na maioria de seus filmes, como por exemplo, Ariane Ascaride e Jean-Pierre Darroussin (também de “O Porto”, “O Gosto dos Outros”). Esse recurso, aliado a outros do elenco, Grégoire Leprince-Ringuet (de “A Bela Junie”, “Buraco Negro”, “Anjo da Guerra”), Anaïs Demoustier (de “A Bela Junie”, “Thérèse D”), gera a cumplicidade interpretativa, corroborando a naturalidade já mencionada. O roteiro aposta e acredita na inteligência de quem assiste. Já de início, insere elementos reais como já conhecidos, ocasionando a surpresa e necessidade de se formar um quebra-cabeça simples ao longo da trama. A política é questionada, trabalhando os elementos de resignação, utopia, cansaço, necessidade, vigor adolescente, levantando o embate entre burguesia e classe trabalhadora, ao colocar um no lugar do outro.
“A luta é uma coisa de classe”, lê-se no muro, com música inglesa e nostálgica. Dessa forma, aprisiona o momento passado, de tentar modificar o mundo capitalista, mas sem datá-lo, porque este encontra atualidade no universo comportamental dos jovens. A narrativa equilibra-se no clichê superficial, propositalmente para mostrar as ideias “ultrapassadas” da luta política, e na realidade bruta da alienação social. “É um homem como os outros. É fraco. Um homem comum”, os parentes analisam um dos personagens, metaforizando a fraqueza pela conservação radical pela mudança social do país. A nostalgia é algo desejado, tanto que a trilha sonora da festa de comemoração de bodas de casamento é regada aos anos oitenta, aludindo aos tempos áureos do protagonista, se é que podemos chamá-lo assim, mesmo dividindo atenção com outros tão importantes quanto. É aí, que vem o entendimento adjetivado. Sonhava em ser um super-herói, herói da política classista pelo sindicato, recitando inglês em trechos de música que possui o fragmento “As neves do Kilimanjaro”, sem perder a “ternura”, quando diz “Inglês é a língua dos colonizadores”. O casal homenageado recebe dinheiro para viajar. Logo depois, um assalto acontece. O dinheiro é roubado. Então, todo questionamento sobre a ética e sobrevivência aprofunda-se. “Ele leva o passado e o presente”, diz-se. O trauma é instaurado, o alimento Nutela é uma iminente possibilidade. Para resolver um problema, estraga outro. O maniqueísmo é posto a prova, expondo que é inevitável não ser burguês no mundo de hoje. Roda-se numa bola de neve. O sistema une. A vingança acontece. A culpa acomete.
A violência é despertada, e revidar é preciso, por causa das ofensas, insultos. “A crise são eles, a solução somos nós”, argumenta-se, expondo mais uma vez a dificuldade de ser sindicalista na época atual, enquanto a música de Joe Cocker, ativista que prezava pela paz e amor no movimento Woodstock, rasga a cena fazendo que o espectador pensasse na frase clássica de Jean-Paul Sartre, “O Inferno são os outros”. O casal, junto com o casal de amigos, tenta entender, envolvendo-se nos problemas do causador destes questionamentos. Na televisão, “O Velho e o Mar”, referencia sutil ao livro homônimo, ao título do filme em questão aqui, que Ernest Hemingway escreveu. Ser burguês é ajudar os outros, porque já se tem o dinheiro. A ética briga com o subjetivismo, gerando analises realistas e existencialistas da vida. “O zoológico está aqui mesmo”, finaliza-se, explicando que houve inspiração num poema de Victor Hugo chamado “Os Pobres”, uma verdadeira declaração humanista de amor ao próximo, sem qualquer ingenuidade ou pieguice. Concluindo, um filme necessário e obrigatório aos marxistas e capitalistas convictos. O filme ao qual os irmãos de Marie-Claire e Christopher estão assistindo na TV é As Bicicletas de Belleville (2003). Ganhou Melhor Filme e Melhor Filme – Júri Popular no Festival De Valladolid 2011. Em 2012, foi indicado ao prêmio César de Melhor Atriz (Ariane Ascaride). Recomendo.
Trailer Oficial Legendado
O Diretor
Robert Guédiguian Jules, nascido em 03 de dezembro de 1953 em Marselha, estreou como diretor com “Último Verão” (1981). A partir de então, dirigiu vários longas, entre eles “À Vida, à Morte!” (1995); “Marius and Jeannette” (1997); “A Cidade está Tranquila” (2000); “Marie Jo e seus Amantes” (2002); “O Último Miterrand” (2005); e “Armenia” (2006).

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