Ficha Técnica

Direção: Mauro Giuntini
Roteiro: Di Moretti
Elenco: Leonardo Medeiros, Tatiana Muniz, Alice Stefânia, Chico Sant’Anna, Eduardo Moraes, Narciza Leão, Sérgio Sartório
Fotografia: André Luís da Cunha
Música: Patrick de Jongh
Direção de arte: Luis Augusto Jungman Girafa
Edição: Willem Dias
Produção: Márcio Curi
Estúdio: Asacine Produções; Plateau Filmes
Duração: 80 minutos
País: Brasil
Ano: 2007
COTAÇÃO: ENTRE O REGULAR E O BOM

A opinião
O diretor estreante Mauro Giuntini traz, em seu primeiro longa-metragem, o conceito de filme Coral, tão utilizado por cineastas conceituados, como Roberto Altman e o mexicano Alejandro González Iñárritu. O gênero apresenta histórias paralelas e sem dependência, suficientes por si só, podendo ou não se encontrar em determinados momentos. No filme em questão “Simples Mortais”, este encontro só é explicado no final. O roteiro apresenta o cotidiano de pessoas comuns, divididos em três histórias, que lutam com seus medos, anseios, desejos, projeções, cinismos, defesas e autodestruição. Mas o projeto construído de Mauro é caracterizado por outro elemento, a de uma cena marcante que define o contexto. Há inúmeras referências cinematográficas ao que acabei de dizer, como por exemplo, “O Último Tango em Paris”, lembrado pela cena da manteiga. Neste, um dos personagens engole a chave. O seu filho então o medica com um purgante, desencadeando um momento escatológico e altamente constrangedor aos espectadores: o barulho da chave sendo expelida no vaso sanitário, seguida de uma visão rápida do interior, visualizando o “produto” diarréico e a mão encaminhada a “resgatar” o objeto engolido. O espectador já possui o conhecimento da linha seguida do filme. Mas é inevitável não defini-lo como “o filme do cocô”, expressão idiomática que foi anexada ao longa-metragem. É uma das cenas finais vivido por Chico Sant’Anna. Amadeu, seu personagem, é um funcionário público que toca teclado em churrascarias para complementar a renda.
Viúvo precoce, há tempos desistiu da carreira artística e investiu na criação de Kdu (Eduardo Moraes), que agora batalha para ser músico de sucesso. O segmento resultou em premiações de Melhor Ator (Chico Sant’Anna) e Melhor Ator Coadjuvante (Eduardo Moraes) no 12º Cine-PE. É escalado, também, como um dos protagonistas, o ator “independente” Leonardo Medeiros (“Lavoura Arcaica”, de Luiz Fernando Carvalho; “Feliz Natal”, de Selton Mello; “Cabra Cega”, de Toni Venturi; “O cheiro do Ralo”, de Heitor Dhalia; “Budapeste”, de Walter Carvalho, entre outros), que só de aparecer já realiza um excelente trabalho. Leonardo vive Jonas, um escritor que, apesar de ter publicado alguns contos premiados, não consegue terminar um romance e leciona Literatura em uma universidade. Enquanto sustenta um casamento protocolar com Kátia (Alice Stefânia), mulher pragmática, encontra inspiração em sua aluna Yara (Tatiana Muniz), apaixonada por poesia. A terceira história mostra Diana (Narciza Leão), uma bem-sucedida apresentadora de televisão que sempre colocou a realização profissional em primeiro plano, mas agora tenta desesperadamente engravidar de seu jovem companheiro, o ator, na ficção, Gabriel (Sérgio Sartório), que está num momento bem diferente da vida. A narrativa experimenta em diferenciados ângulos existenciais, utilizando o foco e o fora de foco, o plano e o contra plano.
Assim, nós temos a imagem vista de uma lente de óculos caído – e quebrado, por exemplo. É um filme que se deixa acontecer. Comporta-se com amadorismo, ora proposital, ora querendo transpassar seriedade. Por causa disso, as interpretações soam forçadas e como ensaios de teatro. Há carga melodramática e de efeito que mitiga a captura do espectador. A impressão que se tem é que todas as tomadas filmadas foram realizadas unicamente, talvez por falta de dinheiro, cansaço e ou no pior das hipóteses, que prefiro não acreditar, por preguiça profissional. É um filme com seus altos e baixos, com diálogos que se apresentam com perspicácia, sarcasmo e picardia inteligente. Ao longo, a repetição da previsibilidade do roteiro incomoda o convencimento e a possibilidade de embarcar integralmente à trama. Força-se a um lado alternativo, mas o que consegue é a corroboração da idéia de ingenuidade. Não chega a ser pretensioso, faltando apenas sair do ensaio. Concluindo, um filme, como disse, com altos e baixos, e que se esquecermos o lado de efeito das interpretações e a grotesca cena escatológica, podemos apreciar a sagacidade do texto falado. Destaque para o poema de João Cabral de Melo Neto no quadro acadêmico. Vencedor do CINESUL – FESTIVAL IBERO-AMERICANO DE CINEMA de 2011 com Melhor Filme – Júri Popular.
O Diretor
Mauro Giuntini nasceu em Brasília, no ano de 1965. É um realizador da primeira geração de Brasília. Estréia em longa-metragem em 2007 com “Simples Mortais”, com patrocínio do Programa Petrobras Cultural – prêmios de Melhor Ator (Chico Sant’Anna) e Melhor Ator Coadjuvante (Eduardo Moraes) no 12º Cine-PE, Festival Audiovisual do Recife (mai/2008) e Melhor Filme pelo Júri Popular no 16º CINESUL – Festival Ibero-americano de Cinema (RJ, jun/2009). Diretor dos premiados curtas ficionais O Perfumado (Melhor Fotografia no 35º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, 2002) e O Jardineiro do Tempo (Melhor trilha sonora no 6º Festival de Cinema de Recife, 2002) e do aclamado documental sobre os sem-terra Por Longos Dias (Prêmio Especial do Juri no 27º Festival de Gramado do Cinema Latino e Brasileiro – 1999). Esse documentário recebeu prêmios em vários festivais no Brasil (Melhor Filme no Festival de Curitiba 99), foi selecionado em mais de 20 festivais internacionais (Clermont-Ferrand, Trieste, Siena, Munique e Berlim) e exibido em televisões do Brasil, Portugal e Austrália. Vídeo artista bastante ativo na década de 90 quando realizou repertório experimental composto por Féssoas (Melhor Vídeo, 13ª Jornada de Cinema e Vídeo no Maranhão, 1991), Brasiconoscópio (8th Fotoptica International Video Festival, 1990) e Speaking Alone (10º Videobrasil: Festival Internacional de Arte Eletrônica, 1994). Produtor executivo da Plateau Filmes, desenvolve os projetos Plutão em Trânsito e Sem ter Porquê em parceria com a roteirista Lu Teixeira. Foi professor de audiovisual da Universidade Católica de Brasília (2000-2009) e desde 2010 leciona na Universidade de Brasília (UnB). Mestre em cinema e vídeo pela School of the Art Institute of Chicago e graduado em Comunicação Social pela UnB.
Com a Palavra, o Diretor
“Simples Mortais é um título que sintetiza essa vontade de fazer um filme sobre o cotidiano, que seja universal, apesar de ser bem regional, muito ungido por Brasília.
Primeiro, surgiu a do pai e do filho. A semente de Simples Mortais foi a história do guitarrista que tocava na Legião Urbana, saiu, foi substituído e a banda estourou. É claro que esse personagem não é igual ao Kdu, nem tinha um pai como Amadeu. Sobre a história da jornalista que tem dificuldade de engravidar, eu conheço várias que passaram pelo problema. É como se a atividade gerasse esterilidade. O núcleo do professor também fala de infertilidade, da infertilidade artística.
A proposta do filme, com sua narrativa múltipla, é tecer um painel de situações e perguntas. O filme pretende falar sobre a negociação que fazemos o tempo todo sobre o que faremos e o que vamos sublimar. Os personagens perseguem sonhos que não fazem mais sentido e os acasos reorientam suas trajetórias.
São famílias incompletas. Mesmo na família do professor, onde há pai, mãe e filhos, o pai é ausente. É incompleta pelo distanciamento do pai que está numa jornada solitária e quixotesca. No caso do pai e do filho, há a ausência da mãe. No terceiro núcleo, uma mulher de 40 anos, que sempre priorizou a carreira, luta para engravidar. Ao longo do filme, só há evolução no campo do afetivo. Nem o trabalho nem a arte são capazes de dar redenção às personagens”

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