Ficha Técnica
Direção: Ana Maria Magalhães
Roteiro: Ana Maria Magalhães
Elenco: Marcello Escorel, Paulo Mendes da Rocha, Lúcio Costa, Carmen Portinho
Fotografia: Dib Lutfi
Direção de arte: Carlos Liuzzi
Edição: Marcelo Pedrazzi
Produção: Ana Maria Magalhães
Distribuidora: Espaço Filmes
Duração: 77 minutos
País: Brasil
Ano: 2009
COTAÇÃO: ENTRE O BOM E O MUITO BOM
A opinião
Em um primeiro momento, o filme “Reidy – A Construção da Utopia” pode ser definido como acadêmico voltado, apenas, aos arquitetos, principalmente por causa de sua narração institucional e das legendas explicativas. Ao avançar a narrativa, é possível a inclusão dos moradores – e simpatizantes – do Rio de Janeiro, já que as imagens, quase totalitárias, remetem a Cidade Maravilhosa, lugar das mais importantes construções arquitetônicas, como o Museu de Arte Moderna e o Aterro do Flamengo. Então, temos dois públicos-alvo deste documentário em questão, que aborda a vida e obra do arquiteto “utópico” Affonso Eduardo Reidy, nascido em Paris, e considerado um dos pioneiros na introdução da arquitetura moderna no Brasil. A responsável por trazer à tona este resgate – e conhecimento aos desavisados – é a diretora Ana Maria Magalhães – que em 2004 fez “Afonso Eduardo Reidy, Lembranças do Futuro” – casada com o cineasta Nelson Pereira dos Santos com quem teve um filho e com o cineasta Gustavo Dahl com quem teve dois filhos; e atriz de inúmeros filmes, como por exemplo “Todas as Mulheres do Mundo”, de Domingos de Oliveira, “Como Era Gostoso o Meu Francês”, de Nelson e a mais marcante, ao lado de Tarcisio Meira, em “A Idade da Terra”, de Glauber Rocha, além de algumas novelas. Reidy estudou na Escola Nacional de Belas Artes, tornando-se arquiteto, influenciado pelas ideias de Le Corbusier, participando do projeto do edifício-sede do recém-criado Ministério de Educação e da Cultura (edifício conhecido hoje como Palácio Gustavo Capanema). A base narrativa do filme mantém-se clássica, com os esperados – e necessários – depoimentos de Enzo Siciliano; Marcelo Escorel; Paulo Mendes da Rocha; Carmen Portinho (esposa de Reidy, casando-se durante a construção do Aterro – e a terceira mulher a se formar em um curso de engenharia no país); Roland Castro. Mas inova pela inclusão de personificar elementos concretos, os transformando em experiências sensoriais aos espectadores.
Quando a imagem é retratada, misturando super 8 com VHS, nostalgia, com ares dos anos setenta, ganha vida com inúmeras e inusitadas texturas, plásticas, saturações, cores, gradações, formas, ângulos, visões periféricas, tudo isto material bruta da arte da arquitetura (de várias partes da cidade carioca e outras contendo as obras do nosso personagem principal). No início, há colagens de fotos antigas, acompanhadas pela trilha sonora de Luiz Claudio Ramos e Edu Krieger, numa edição estilizada, vintage e extremamente moderna. Se analisarmos, não tão fundo assim, perceberemos a sutileza da interatividade, como o trecho da música que diz triunfo, e o que se vê é o Arco do Triunfo, em Paris, que alias, participa como personagem em suas cotidianas ruas, pessoas, jardins, prédios e peculiaridades. “O sonho é um dos caminhos por onde passa a verdade”, diz-se entre muitas frases de efeito, um misto de técnica, definição e a busca pelo momento perfeito. Reidy buscava imagens em sonhos, com a “arquitetura pura e simples”, “uma arquitetura com sentido de obra de arte”. Há ainda simulações em efeitos especiais de construções projetadas passo a passo, junto com imagens de arquivo (estáticas ou não) do Rio de Janeiro antigo, como a cena do filme de Nelson “El Justiceiro”. Os projetos – utópicos ou não, realizados ou não, projetados ou não postos em via de fato – são inúmeros: a construção (e demolição) da área do Castelo (que não foi à frente em sua totalidade); Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (em 1954, como já disse); Museu Nacional do Kuwait; propôs o desmonte do Morro de Santo Antônio para construção de um Centro Cívico, igual ao dos americanos; e de prédios populares ao invés dos de luxo no Parque da Catacumba. É Também o responsável pelos projetos do “Conjunto Habitacional da Gávea”, “mutilado” pela construção do Túnel Zuzu Angel, e do “Conjunto Habitacional Pedregulho”, em Benfica, considerado arrojado pela sua concepção espacial e pela prioridade dada aos equipamentos de lazer e convivência.
Reidy era considerado utópico porque era social. Pensava no planejamento urbano, de organizar a cidade da melhor forma possível, fornecendo dignidade aos moradores. Ao idealizar um projeto, ele nunca deixava de pensar na interação praticidade, natureza, baixo preço. “A habitação é o elemento principal da estrutura de uma cidade. Pedregulho, utopia e realidade se misturando”, diz-se levantando uma das ideias mais engenhosas dele, que era a de acabar com as favelas. A narrativa inclui ainda artistas de rua, do Centro do Rio, como o Sombra, e músicos. Reidy era um sonhador com técnica, que sabia exatamente mesurar a possibilidade, mitigando ao máximo o absurdo. Possuía conhecimento sobre a disposição espacial ideal, mesclando arte, ciência e técnica. “Sonhar dá trabalho”, “Organizar a cidade é frustrante”, são alguns fragmentos dos depoimentos. Abordar arquitetura em um documentário adjetiva responsabilidade à diretora, que precisa construir beleza e dignidade, com uma roupagem agradável, transcendendo os públicos-alvo do qual já citei. É inevitável não despertar certo amadorismo cinematográfico, principalmente quando um dos depoentes caminha para fora da empresa, tentando ser natural, assim como a secretária, que olha rapidamente à câmera, desviando o olhar e fazendo ares de conteúdo. Cenas como essa não prejudicam o contexto, mas poderiam ser descartadas, porque “brinca” com fogo, que é o equilíbrio e o ritmo da trama, mesmo sendo documental. “A utopia é a verdade de amanhã”, finaliza-se. Concluindo, um filme que merece ser visto, inclusive por quem não mora no Rio de Janeiro, e por quem não tem como profissão – e ou hobby – a arquitetura. Confesso, que ao passar pelo Aterro, terei uma imensa curiosidade de desvendá-lo em suas formas, tentando comparar meus pensamentos ao do idealizador em questão, “Reidy do futuro”. Recomendo. Dividiu o prêmio de Melhor Documentário do Festival do Rio em 2009 com “Dzi Croquetes”.
A Diretora
Ana Maria Magalhães nasceu no Rio de Janeiro em 21 de janeiro de 1950, e iniciou sua carreira como atriz do Grupo Oficina. Atuou em alguns dos filmes mais importantes do cinema brasileiro: Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos de Oliveira (1967); Garota de Ipanema, de Leon Hirszman (1967); Como Era Gostoso o Meu Francês, de Nelson Pereira dos Santos (1972); Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia (1977), de Hector Babenco; e A Idade da Terra, de Glauber Rocha (1981). Na TV, participou de novelas como Gabriela (1975) e Saramandaia (1976). Além de curtas e documentários, dirigiu o longa-metragem Lara (2002), cinebiografia da atriz Odete Lara.

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