“A metalinguagem dos sentimentos”

A opinião (por Fabrício Duque)

“De mãos livres” conta a história de Barbara, uma cineasta que trabalha com presidiários há alguns anos. Ela dá início a sua pesquisa para um novo filme em uma prisão da periferia de Paris. Duas vezes por semana, ela vai ao local fazer entrevistas com um grupo de prisioneiros, que vão servir de base para seu roteiro. Lá, Barbara conhece Michel, um dos detentos que participa de seu workshop, e os dois se apaixonam. Eles iniciam uma relação, mas aos poucos vão perdendo o controle. É um filme extremamente metalingüístico, porque se baseia em histórias reais para que um roteiro ficcional da própria realidade de um filme, que mistura o lado pessoal e o lado interpretativo, dentro e fora da prisão, seja realizado. Ufa! Para isso, a diretora Brigitte Sy precisou escalar atores talentosos a fim de fornecer convencimento, naturalidade e amadorismo proposital, dentro do universo autoral. Em uma reunião, a protagonista pergunta “O que é o cinema para você?” e ouve as mais variadas respostas “Cinema é sorvete, a pausa, Humphrey Bogart, Mickey Rourke, Dustin Hoffman”. As complicações amorosas de Barbara são explicadas ao longo da trama. Assim, as suas ações e reações possuem embasamento para agir deste modo. “Não gosto que vasculhem dentro de mim”, diz-se. “Pensamento, emoção e ação, os três pilares do ser humano”, riem pela limitação que eles, os presos, estão acostumados a conviver diariamente. O filme, que foram escalados, funciona como um passa tempo, uma catarse em suas vidas ociosas. Barbara sofre de uma doença terminal (que não é aprofundada, prejudicando o contexto narrativo – ponto negativo, como assistir…), separada de um viciado em drogas, com uma filha e apaixonada por um detento. Percebemos que o próprio ser humano escolhe a própria vida e as conseqüências mediante seus atos. Ela foi ao fundo do poço e deseja retornar. A música, como o tango, direciona e manipula o que se deseja transpassar, instituindo o ser humano como material bruto de inspiração. “A única coisa difícil de conseguir aqui é a certeza”, diz-se. “O roteiro falta distância”, critica-se. “Não quero divertir, e sim criar arte”, revolta-se. “Prisão é legal. Todo mundo faz favores”, ironiza-se. É um filme claustrofóbico, que afugenta e prende o espectador no universo apresentado. Concluindo, a narrativa perde ritmo em vários momentos por não conseguir equilibrar agilidade com existencialismo. É dedicado a Michel, o verdadeiro preso. Um bom filme, angustiante, mas que se torna cansativo, longo e repetitivo.

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