Ficha Técnica

Direção: Alain Fresnot
Roteiro: Alain Fresnot, Marcus Aurelius Pimenta
Elenco: Marissol Ribeiro, Luana Piovani, Lima Duarte, Robson Nunes, Caco Ciocler, Vera Holtz, Marisa Orth, Ailton Graça
Fotografia: José Roberto Eliezer
Música: Arrigo Barnabé
Direção de arte: Alain Fresnot e Fábio Goldfarb
Figurino: Caia Guimarães
Edição: José Carone Jr. e Mariana Fresnot
Produção: Suzana Villas Boas, Pablo Torrecillas
Distribuidora: PlayArte
Estúdio: A.F. Cinema e Vídeo
Duração: 89 minutos
País: Brasil
Ano: 2009
COTAÇÃO: ENTRE O BOM E O MUITO BOM
A opinião
Confesso que senti dificuldades em traspor ao papel opiniões sobre o mais recente filme do diretor francês (por nascimento) e brasileiro (por tempo de permanência). O motivo é o fato, deste blog site ter apreciado o longa-metragem em questão imensamente. “Família Vende Tudo” possui um roteiro incrivelmente inteligente, um elenco primoroso e uma atmosfera de despretensão. O lapso temporal que Alain usa entre filmar um filme e outro (o seu penúltimo foi “Desmundo”, quase oito anos de diferença, em 2003, que fugiu do seu gênero preferido: a comédia) ajuda a construir a história que ele deseja apresentar, e que também assina o roteiro junto com Marcus Aurelius Pimenta. O argumento incita o questionamento social do espectador ao introduzi-lo no politicamente incorreto, participando dos subterfúgios que os personagens precisam seguir a fim de sobreviver em um mundo cruel, hipócrita, com regras surreais – e incompatíveis – de comportamento. Eles são “meio tortos”, disse o ator Caco Ciocler, que interpreta Ivan Carlos, o Rei do Xique, fora do padrão comum massificado pela mídia. Comportam-se de forma maniqueísta, convivendo com o instinto negativo e positivo de seus seres. Eles querem o sucesso, o dinheiro, ter uma vida melhor. Para isso, mitigam qualquer possibilidade de pudor. Tudo é permitido. Tudo pode ser vendido. Para estes personagens, os meios justificam os fins. Definem-se como humanizados porque sonham e acreditam que um dia tudo melhorará. A esperança estimula as ações, independentemente de serem para o bem e ou para mal. A crítica acirrada, explicita e debochada contrasta-se com o virtuosismo, a perspicácia, sagacidade dos diálogos, que contextualiza a leveza e a suavização. Os tabus e a clandestinidade estão presentes e recorrentes.
Há uma criança de doze anos, interpretada pelo excelente ator mirim Raphael Rodrigues, que fuma e pergunta sobre o tamanho do pênis; há a mensagem do pai ordenar à filha que não use camisinha para que possa “embuchar” de um cantor famoso (Caco Ciocler), e recebe parabéns dos vizinhos da comunidade quando a menina enjoa; há a frase “Scort tanto recebe as pessoas, quanto dá”; há a “roçada” do homem na personagem Lindinha em um ônibus lotado; há a falta de culpa ao trair a esposa; há a liberação sexual – e insinuação – a fim de conseguir o que quer; há o evangélico que precisa conviver com o “banditismo” familiar; há a agressividade das conversas – que demonstram o limite de se suportar tudo o que acontece a eles, todas as adversidades, todas as dificuldades de se manter como individuo social em um mundo que não são reconhecidos, muito pelo contrário, que se encontram invisíveis aos olhos da minoria elitizada. “A gente não vai ver as Cataratas (do Iguaçu) não, é pai?”, pergunta-se. “Pra que? Só água”, responde-se. São limitados e só pensam no dinheiro – porque sentem a massificação capitalista, em conseguir transportar mercadorias ilegais do Paraguai ao Brasil, chamados “muambeiros”. Com elenco de primeira, podemos apreciar interpretações de Caco Ciocler, Lima Duarte, Vera Holtz, Luana Piovani, Marisol Ribeiro, Imara Reis, Robson Nunes, entre outros, com extrema naturalidade dos diálogos e das ações. A fotografia e a câmera, demonstrando atemporalidade, com propósito de possuir uma aura amadora, seguem a mesma direção ao universo anti-burguês. Ivan Carlos, o personagem do brega music, enlouquece milhares de fãs com reboladas em sua calça justa ao som do Xique, gênero musical inventado por ele. “O Xique é uma espécie de neo-lambada, funk, lembrando um pouquinho o flamenco e tem algo de axé baiano”, explica Fresnot. O cantor Latino, que faz uma participação especial no filme, também foi responsável pelo ensaio de 8 mil pessoas, “preparando” a entrada do Caco Ciocler/Ivan Carlos, em um de seus shows para as filmagens. O ator aprende direitinho, transmitindo sensualidade e desenvoltura.
O deboche do roteiro está sendo considerado caricato por alguns críticos, que por esta razão definem o filme como falta de recursos e criatividade narrativa. Como este blog site já disse, é um longa-metragem extremamente rico, que não pretende, de forma alguma, abaixar a bola e fornecer entretenimento gratuito à platéia. O diretor mantém a “tragédia para rir”, pelas palavras do próprio, até o final. A caricatura apresentada, como a namorada vesga, como a atriz Beatriz Seagal interpretando uma mistura de Hebe com Casos de Família, como a revista Contigo que vira Castigo, como Luana Piovani que é treinada por Latino – lembrando em muito Kelly Key, Marisa Orth (que vive uma atriz em pecado, testemunhando: “Eu parei de interpretar. Aleluia!”), entre tantas referências, atiça a crítica, questionando, antropologicamente, o ser humano. “Pai bandido e irmã puta”, diz o irmão da Igreja. São esquemas, pequenas tramóias, pedidos, chantagens, manipulações, pequenos poderes momentâneos, seduções, tudo com sensacionalismo explícito, irônico, debochado, exagerado, ofuscante e completamente brega. Só que no meio disso, há o aprofundamento humanizado, fazendo com que o espectador torça pelo sucesso destes personagens sem rumo. Quando chega o final, continua a esculhambação, por induzir uma falsa felicidade encenada e por apresentar toda a equipe do filme. Concluindo, um filme que merece ser visto e revisto. Recomendo. Melhor Ator (Caco Ciocler), Ator Coadjuvante (Robson Nunes), Trilha (Arrigo Barnabé) e Direção de Arte (Alain Fresnot e Fábio Goldfard) do Cine PE 2011.
O Diretor
Cineasta e produtor radicado em São Paulo, nasceu em 1951, na França. Aos oito anos se mudou para o Brasil com a família. Formou-se em cinema pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo em 1976, mas um ano antes já havia fundado a produtora A. F. Cinema e Vídeo. Montou, produziu e dirigiu filmes curtos como Pêndulo (1974), Capoeira (1979) e Amor que fica (1986). Além disso, foi assistente de direção e montador de longas de Leon Hirszman, João Batista de Andrade e André Klotzel (1984). A comédia Lua cheia (1988), sua estreia na direção de um longa, conquistou o Sol de Ouro do RioCine Festival. No campo da política cinematográfica, foi vice-presidente da Associação Paulista de Cineastas e presidente da Comissão Estadual de Cinema de SP.
Filmografia
Diretor
Família vende tudo (2011)
Desmundo (2003)
Ed Mort (1996)
Lua cheia (1988). Prêmio Sol de Ouro no RioCine Festival.
Produtor
Saudade do futuro (2001), de Marie-Clémence e César Paes
Castelo Rá-tim-bum (2000), de Cao Hamburger
Através da janela (2000), de Tata Amaral
Kenoma (1998), de Eliane Caffé
Assistente de direção
Eles não usam black tie (1981), de Leon Hirszman
Doramundo (1977), de João Batista de Andrade
Montador
A marvada carne (1984), de André Klotzel. Prêmio de melhor montagem no Festival de Gramado.
Janete (1982), de Chico Botelho
O homem que virou suco (1979), de João Batista de Andrade
Doramundo (1977), de João Batista de Andrade

Bastidores

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