Ficha Técnica
Direção: Marco Dutra, Juliana Rojas
Roteiro: Marco Dutra, Juliana Rojas
Elenco: Helena Albergaria, Marat Descartes, Mariana Flores, Gilda Nomacce
Produção: Sara Silveira, Maria Ionescu
Fotografia: Matheus Rocha
Direção de arte: Fernando Zuccolotto
Figurino: Graciela Martins
Edição: Caetano Gotardo
Distribuidora: Polifilme
Estúdio: Dezenove Som e Imagens
País: Brasil
Ano: 2011
COTAÇÃO: BOM

Preâmbulo Explicativo
De uns tempos para cá, o cinema brasileiro imprime a característica de experimentação, funcionando como a mais recente fase da retomada. Chamada de “Novíssimo Cinema Nacional”, busca fugir dos gatilhos comuns pertencentes ao gênero comercial, transformando-se em independente, sendo, na maioria das vezes, realizado por uma única pessoa, que avoca inúmeras funções (direção, roteiro, fotografia, edição, produção, entre algumas).

A opinião
“Trabalhar Cansa” aborda o tema da necessidade do emprego como forma de se manter em sociedade. A crítica, sutil, é mostrada pela história fictícia de uma família que se desconstrói quando o marido é despedido. Eles precisam recomeçar e percebem que abrir um pequeno mercado pode ser uma alternativa a um futuro satisfatório. Os diretores Marco Dutra e Juliana Rojas, estreantes em um longa-metragem, chamaram a atenção do Festival de Cannes com o curta-metragem “Um Ramo”, contando, com realismo fantástico, que um dia, ao sair do banho, Clarisse (Helena Albergaria) descobre que tem um ramo saindo de seu braço direito. No filme em questão, os cineastas repetem a dose tanto por imprimir surrealismo, quanto por escalar a mesma atriz e pela seleção à mostra Un Certain Regard, neste ano, no mesmo Festival.
O título é inspirado em poema homônimo do italiano Cesare Pavese (1908 – 1950), que mergulhava na casualidade do cotidiano, refletindo observações existencialistas, e que escreveu certa vez “O ócio torna as horas lentas e os anos velozes. A atividade torna as horas rápidas e os anos lentos”, apresentando-se como uma ponte à imaginação. A narrativa é clássica e linear. Inicia-se com a dona-de-casa Helena (interpretada por Helena Albergaria) analisando um galpão que antes foi um mini-mercado, com a presença da corretora de imóveis. Com imagem granulada, saturada ao contraste, o longa-metragem apresenta naturalidade nos diálogos e nas ações. Ela pensativa, após o marido, Otávio (Marat Descartes, de “Os Inquilinos”), ser demitido, revolta-se em catarse e desespero, mas resolve seguir adiante e alugar a venda abandonada.
“Eu vou fazer isso dar certo. Deixa eu tentar?”, pergunta ao marido, que aceita e a ajuda a organizar o local. Porém algo estranho e misterioso começa a ocorrer no mercado. Ela contrata a empregada doméstica Paula (Naloana Lima) para tomar conta das tarefas do lar e de Vanessa (Mariana Flores), sua filha. O filme é direto e não cria meio termos para apresentar a ação. A atriz é excelente, fornecendo naturalidade própria e ao contracenar com os outros atores.
Aos poucos, as relações pessoais e de trabalho entre os três personagens sofrem uma inversão inesperada, ao mesmo tempo em que ocorrências perturbadoras passam a ameaçar os negócios de Helena, que pode ser entendido como a personificação do medo e da estranheza que envolve a sua vida. Otávio freqüenta entrevistas de emprego. Encontra avaliadores extremamente técnicos, clichês, que usam regras incompreendidas e psicotécnicas para contratar. Neste momento, é muito presente a relação entre empregado e empregador. O poder muda. A submissão também. Ela sente dificuldades em gerenciar o local, por causa de detalhes já conhecidos, como roubo pelos funcionários.
Outro acontecimento estranho, um vazamento de líquido negro. A sua mãe, extremamente prepotente e cruel, adentra a história como a gota que transborda o copo de água. Não há trilha sonora como acompanhamento. A cena é seca e não manipula, respeitando a inteligência do espectador. Assombrações, situações inexplicáveis, a escuridão, o sangue escorrendo do nariz, o anel colocado na mão molhada, os produtos estragando, tudo pode gerar a loucura, a alucinação, a fuga ao desconhecido. A curiosidade, neste caso, é o impulso à resolução das pendências mentais, simbolizadas em elementos palpáveis e concretos, que são enfrentados com coragem, perseverança, crença religiosa, superstição e sal grosso. “Não brinca com o dinheiro, filha.
É sujo”, diz-se, despertando no espectador um questionamento silencioso. É uma selva o meio de trabalho que ela se envolveu, precisando escolher entre o candidato (à vaga) mais eficiente – e descartando outros. A solução vem ao final como forma de libertação: “Esquecer as convenções sociais e entrar em contato com o próprio primitivo: o macaco interior”. Concluindo, um longa-metragem surrealista, estranho, metafórico, simbolista, que busca a libertação pelas ações simples, quebrando a barreira do limite e inserindo a possibilidade, realista, não fantasiosa, usando a fantasia, de sobrevivência na crise empregatícia que domina o momento atual. Ganhou no FESTIVAL DE PAULÍNIA 2011 o Prêmio Especial do Júri de Melhor Som. Selecionado para a mostra competitiva do 44º Festival de Brasília do Cinema.
Os Diretores
Trabalhar Cansa é o primeiro longa-metragem dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, realizadores dos curtas As Sombras, O Lençol Branco e Um Ramo. Os dois últimos foram exibidos no Festival de Cannes, e Um Ramo foi premiado no mesmo festival como o melhor curta da semana da crítica. Juliana e Marco são integrantes do coletivo Filmes do Caixote, jovens realizadores de São Paulo e do Rio de Janeiro que produzem em colaboração constante.

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