Ficha Técnica

Direção: Cláudio Torres
Roteiro: Cláudio Torres
Elenco: Wagner Moura, Alinne Moraes, Fernando Ceylão, Maria Luiza Mendonça, Gabriel Braga Nunes
Fotografia: Ricardo Della Rosa
Música: Luca Raele, Maurício Tagliari
Direção de arte: Yurika Yamasaki
Figurino: Marcelo Pires
Edição: Sérgio Mekler
Produção: Cláudio Torres, Tatiana Quintela
Distribuidora: Paramount Pictures Brasil
Estúdio: Conspiração Filmes / Globo Filmes
Duração: 106 minutos
País: Brasil
Ano: 2011
COTAÇÃO: MUITO BOM

A opinião
Talvez, pelas leis da física, explique-se o fenômeno que acontece com a Família Torres. Tudo começou quando o patriarca (Fernando Torres) e a matriarca (Fernanda Montenegro, nascida Arlette) se conheceram, na peça “Alegres Canções nas Montanhas”, em 1950. Não se pode negar a competência artística destes referidos artistas. Acredito, de forma convincente, que essas qualidades interpretativas e cinematográficas foram transmitidas aos seus filhos: Fernanda Torres e Cláudio Torres. Este último é o diretor do filme em questão “O Homem do Futuro”, que se utiliza da física quântica (desintegrações moleculares) a fim de explicar uma história que envolve um homem que decide voltar a seu passado para que possa, assim, modifica-lo, porém, sem se dar conta das consequências, devido a seu elevado estágio de passionalidade, pressa e crença exacerbada na inteligência que possui, que o leva à Teoria do Caos. Segundo a cultura popular, o bater de asas de uma simples borboleta poderia influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez provocar um tufão do outro lado do mundo, chamado de Efeito Borboleta. Esse tema foi mencionado, pela primeira vez em 1963, por Edward Lorenz.
Em 2004, os diretores Eric Brest, J. Mackye Gruber dirigiram uma versão cinematográfica dessa teoria no filme homônimo “Efeito Borboleta”, com Ashton Kutcher, que viaja no tempo, o modificando e alterando o curso natural dos acontecimentos. Baseado nisto, referenciado explicitamente, Cláudio Torres (de “O Redentor” e “Mulher Invisível”) direciona o seu roteiro ao realismo fantástico e fantasioso da Ciência. Wagner Moura (de “Vips”, “Tropa de Elite 1 e 2”) interpreta Zero, um cientista genial, sonhador, utópico e infeliz. Ele põe em prática um novo invento: um acelerador de partículas e resolve testá-lo por causa de sua demissão. Ele volta no tempo e “ganha” uma nova chance com Helena (Alinne Moraes, de “Fica Comigo Esta Noite”, “Floderlis”, “Os Normais 2”), uma mulher que o renegou e o humilhou quando eles eram jovens. A narrativa inicial não é linear. Apresenta fragmentos estilizados de imagem (lembrando a abertura de “Redentor”), como uma viagem (imersão) epifânica e psicodélica. Com isso, introduz o espectador ao caminho escolhido pelo diretor, intercalando passado e presente, memória e realidade, e imaginação. O gênero Ficção Científica não necessita ser crível, porque o que realmente interessa é o conteúdo, a sua história.
Neste caso, o longa-metragem convence e prende a atenção de quem está assistindo, por utilizar sinestesia emocional, inserindo um universo datado, nostálgico e afetivo (a nós e aos personagens), com música “Tempo Perdido”, do grupo Legião Urbana. É impossível não inferir a “De Volta Para o Futuro”, com Michael J. Fox, de 1985, dirigido por Robert Zemeckis e produzido por Steven Spielberg. Então, o Efeito Borboleta encontra espaço em qualquer sistema que seja dinâmico, complexo e adaptativo. É a metáfora da vida. O ser humano precisa adaptar-se a situações complexas, sendo dinâmico e perspicaz. Vencer as dificuldades pelas escolhas, o poder do livre arbítrio. Nem sempre a opção escolhida é a certa. O nosso cérebro projeta probabilidades e “se(s)”. Neste momento, desejamos o retorno a fim de consertar uma ação passada. “Eu nunca andei de avião”, diz-se. “É mais ou menos assim”, rebate-se. O diálogo pode querer dizer tanto sobre a primeira vez do personagem no sexo, quanto sobre a viagem ao passado. As lembranças misturam-se com elementos reais. Todos aconteceram, mas o tratamento narrativo quer a estranheza e a confusão, fazendo com que o espectador monte o quebra-cabeças aos poucos.
Zero e Helena cantam “Temos nosso próprio tempo”, entre digressões. A carga de energia, desintegração molecular, raios, tudo é válido para personificar o estado científico. A primeira viagem o leva ao passado, o modifica e gera consequências ainda mais catastróficas. Atenção especial ao “figurante” Gregório Duvivier, que vive um passante nas ruas do Rio de Janeiro. Em 1991, a mulher que ele deseja, o quer. Mas ele não acredita (depreciando-se). “Não é lógico você me amar”, diz. Há referências, críticas, picardias sociais. “Pode fumar aqui?”, pergunta. “Claro, é um bar”, responde-se perplexo. Naquela época, o politicamente correto e saudável não havia se instaurado no nosso cotidiano de individuo pertencente a uma sociedade que “salvar” o planeta. A fotografia experimenta estilos. Luz ensolarada, alaranjada, fragmentada. É agradável, interessante e extremamente competente. “A gente não pode viver com medo”, diz-se. A história nos mostra as situações absurdas do início dos anos noventa, e aceitamos por termos visto isso. Um adolescente de agora não acreditaria no que se usava naquela época. É um “século” distante. Será que evoluímos? Por que temos tanta saudade do passado? Por que não conseguimos seguir em frente? No filme “Meia noite em Paris”, o diretor Woody Allen traz a tona esses questionamentos.
Outro ponto positivo do filme é a presença de covers musicais, como a música “Creep”, do Radiohead, que numa tradução literal, diz “Aqui, eu não pertenço”. Há ainda “By my side”, do INXS e R.E.M. O garoto do subúrbio e a rainha do baile. “Não tenho tempo para abordagem sutil”, ela o beija. Outra referência observada é a dos filmes de formatura americana. Mesmo com toda a perspicácia do roteiro (com seus diálogos, ações e reações), pode-se reparar uma superficialidade latente, impedindo que se mergulhe, plenamente, à trama apresentada. Esse elemento permeará o filme até o seu final, mas num processo crescente, desperta o sentimental de quem está do outro lado da cadeira do cinema. Há uma aura de amadorismo pretendido, como se o diretor imprimisse uma volta real à época apresentada, deixando o argumento funcional e despretensioso. Até a droga GHB é mencionada, como o inicio de uma era. Viajar no tempo pode modificar as próprias características intrínsecas do personagem. Em outro momento, ele transforma-se em viciado, manipulador, ciumento, mulherengo, egoísta, traidor. “Você sempre foi um zero”, referencia-se inteligentemente. Várias situações realizam a graça natural (“Google? Marca de chiclete?”), que não vem ao caso contar para que a surpresa não seja quebrada.
“Não se muda o que já foi”, diz-se em um “paradoxo quântico”. “Você é o tipo de homem que vale a pena esperar”, decide-se. É uma história de amor adjetivada. Usa o sentimental e a emoção afetiva, mas mitiga o clichê por ser extremamente natural. Não há melodramas. O final é trapaceado. Mais uma reviravolta inteligente do roteiro. Finaliza com ágeis fragmentos de tudo o que aconteceu. Concluindo, um filme que arrepia, sem clichês, que insere a ciência num contexto de amor, divertido, leve e despretensioso. Um pouco longo talvez, mas nada que prejudique a cotação de ser um filme muito bom. Recomendo. “Tentei fazer um filme pop, sabe? Romântico, mas pop”, explica o diretor, complementando “O realismo não é algo que me atrai. Gosto das hipóteses fantásticas, até porque o teatro e o cinema são os lugares onde isso pode acontecer e, dentro disso, evidentemente, viver o drama humano, este sim real. A desilusão, a mágoa e o ressentimento do personagem do Wagner são coisas muito reais que as pessoas experimentam”. Para a sequência de uma festa do filme foram selecionados mais de 400 figurantes. Com o orçamento estimado de R$ 7 milhões, as filmagens duraram cerca de cinco semanas e foram usadas locações em Paulínia, Campinas, São Paulo, e no Rio de Janeiro.
O Diretor
Cláudio Pinheiro Monteiro Torres é um diretor e produtor de cinema e publicidade brasileiro. Escreveu o roteiro para o filme Redentor (2004) com a irmã, Fernanda Torres. É filho dos atores Fernanda Montenegro e Fernando Torres. Estudou Belas Artes, foi diretor de arte e, aos 30 anos, entrou como sócio de uma produtora audiovisual, Conspiração Filmes, juntamente com seu cunhado Andrucha Waddington. Dirigiu cerca de 250 comerciais, dois especiais musicais e uma dezena de clipes.
Filmografia (Direção / Roteiro)
1999 – Traição (curta-metragem “Diabólica”)
2004 – Redentor
2008 – A Mulher do meu Amigo
2009 – A Mulher Invisível
2011 – O Homem do Futuro
Com a Palavra, o Diretor…
“Costumo dizer que‭ “‬O Homem do Futuro‭” ‬é filho de‭ “‬A Mulher Invisível‭”‬.‭ ‬Ele nasceu especificamente de uma cena onde Selton Mello contracenava com ele mesmo e denunciava o mecanismo pelo qual a mulher invisível aparecia.‭ ‬Percebi que ali tinha um assunto interessante para trabalhar e queria fazer um filme onde um mesmo ator contracenasse com outras versões dele próprio.‭ ‬Assim surgiu a premissa deste novo filme,‭ ‬a de um cara que viaja no tempo e encontra com ele mesmo vinte anos mais novo.‭ ‬Neste encontro ele conta para si mesmo tudo o que irá acontecer no futuro com o propósito de se tornar rico e reconquistar o amor perdido.‭ ‬É uma premissa bem clássica que mexe com a história do paradoxo do tempo existente em vários filmes,‭ ‬séries,‭ ‬livros e revistas em quadrinhos da qual me apropriei para fazer este filme”
“É um roteiro baseado em três atos como manda o figurino de um roteiro americano e escrito sob a direção da comédia romântica com elementos fantásticos.‭ ‬No primeiro ato,‭ ‬após relutar,‭ ‬o herói faz o que o destino lhe impõe e as coisas aparentemente dão certo.‭ ‬No segundo,‭ ‬tudo o que faz dá errado e aí vem o terceiro ato,‭ ‬onde se conserta tudo o que dá errado no segundo. Usei referências de filmes que gosto de assistir e que assisti na minha infância.‭ ‬É uma junção dos seriados que passavam nas tardes de quando era criança como o‭ ‬Túnel do Tempo,‭ ‬Perdido no Espaço e‭ ‬Jornada nas Estrelas.‭ ‬Depois vieram‭ ‬De Volta para o Futuro‭ ‬1,2‭ ‬e‭ ‬3‭; ‬O Exterminador do Futuro‭ ‬1,‭ ‬2,‭ ‬3‭ ‬e‭ ‬4‭; ‬Peggy Sue‭; ‬O Efeito Borboleta‭; ‬A Dona da História de Daniel Filho e‭ ‬A Máquina do João Falcão.‭ ‬É possível perceber para quem tem mais de‭ ‬40‭ ‬anos que o figurino do Wagner é uma mistura de Buck Rogers com o professor Robinson de‭ ‬Perdido no Espaço,‭ ‬já a Alinne tem o figurino inspirado em‭ ‬Barbarela”

Bastidores

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados