Ficha Técnica

Direção: Christoffer Boe
Roteiro: Christoffer Boe
Elenco: Jens Albinus, Igor Radosavljevic, Marijana Jankovic, Thomas Høite Meersohn, Özlem Saglanmak, Benjamin Boe Rasmussen
Fotografia: Manuel Alberto Claro
Música: Sylvain Chauveau
Direção de arte: Thomas Greve
Figurino: Manon Rasmussen
Edição: Peter Brandt
Produção: Tine Grew Pfeiffer
Distribuidora: Lume Filmes
Duração: 90 minutos
País: Dinamarca/ Suécia/ França
Ano: 2010
COTAÇÃO: MUITO BOM

A opinião

“Tudo Ficará bem” é uma homenagem à profissão de roteirista cinematográfico, contada pelo ponto de partida das consequências de um acontecimento trágico. O roteiro manipula o espectador todo instante, mas fornece elementos (detalhes) que captam a verdade real. “Do nada vem o nada, exceto fiapos”, a frase referenciado no início apresenta o direcionamento, complementado pela abertura de uma guerra feita em maquetes. “Escreva uma de suas histórias que machucam e tudo ficará bem”, diz-se. Obcecado pelas próprias histórias, o diretor e roteirista Jacob Falk (Jens Albinus) encontra fotografias de prisioneiros de guerra sofrendo sob tortura de soldados dinamarqueses. Supondo uma conspiração política, Falk entra num ritmo frenético para tentar revelar o mistério por trás das imagens. Essa manipulação narrativa prende a atenção de quem assiste, gerando aflição pela ação e desconhecimento pelas reviravoltas. Uma outra história é intercalada. Um ex-recruta de guerra, por ser muçulmano e falar farsi, é sondado pela Inteligência militar para que volte a ativa como interprete. De volta à primeira, Jacob atropela alguém. É um soldado que pede a ele que leve sua bolsa. Nela, ele encontra fotos e um diário com relatos de tortura por parte de soldados dinamarqueses. Na trama, a vida pessoal de Jacob também é mostrada. Ele e sua esposa esperam a adoção de um filho. “Você é a mulher dos meus sonhos”, ele diz. “E o que acontece comigo quando você acorda?”, retruca-se. Esse momento pode ser considerado uma “pista” à verdade plena.
Ele vive sentindo-se perseguido, espionado e observado por militares. A fotografia, fantástica, clara, ensolarada, que cega a visão do espectador pelo excesso de sol refletido, também fornece o elemento fantasioso. É como se houvesse um vidro que separasse os personagens, refletindo a luz projetada e incidental. Uma guerra, e suas atrocidades (de tortura), é mostrada em flashes, entre fotos de soldados, que se comportam como turistas, e os atos violentos em si. Isso é retratado pela segunda história. O personagem viu o que não deveria ter visto e assim, o ex-recruta interprete retorna a sua casa por instabilidade mental. A luz do teatro, quando Jacob, entrega as fotos a fim de que sua irmã veja, é excessivo, podendo ser considerado como a metáfora do conhecimento inicial. O tom é diferente. Ela é mais intolerante. Assim, a manipulação é aceita pelo espectador, porque se comporta de forma inteligente, sem obviedades e clichês. É direto, com ação rápida, edição ágil e uma aura perdida (de não saber o que realmente vai acontecer, ou se aquilo é fantasia ou realidade). “Lugar estranho esse”, diz ao sentar com jornalistas, lembrando um dos protótipos de suas maquetes. “Moralidade atrasada é melhor que nenhuma”, com sarcasmo, não age, mesmo provocado (a condescendência alheia). Os segredos policiais e ordens de sigilo o estimulam a continuar a investigação.
Mas não encontra nada e ainda perde os elementos que deveria proteger. A estranheza, aos poucos, é entendida. “Tão obcecado pelo seu cinema, que você pode ver qualquer coisa”, diz-se, fornecendo mais uma dica que aquilo que se vê não é real. É a imaginação de um escritor envolto em sua história. Será? Realidade? Fantasia? Loucura? Criatividade demasiada? Os detalhes fazem a diferença, conectando e explicando brechas narrativas. “Eu nunca fiz esse tipo de coisa antes”, ele diz. O que? Vivenciar plenamente o roteiro? Entrar em uma trama de espionagem militar? Ele grita, enlouquecido em ações descontroladas. Perdido sem novas ideias? Estressado pelo prazo imposto de entrega do texto? Ou com medo dos perseguidores? “Você está preso em uma história?”, pergunta-se a ele. “Eu sinto falta dela”, ele responde. Quando o espectador está quase montando o quebra-cabeças e entendendo toda neurose surrealista apresentada, eis que surge o título “República Tcheca – Seis meses antes”. Neste ponto, a narrativa linear expõe as causas, explica os porquês e insere as consequências do que aconteceu para que o protagonista agisse daquele forma. Uma parte necessária à compreensão de quem assiste. Porém, mesmo no momento que deveria mitigar as dúvidas, surge o vidro refletido. Imaginação? Loucura adquirida pelo sofrimento? Concluindo, um filme muito bom que direciona a sua trama pela manipulação de reviravoltas contraditórias. Vale muito a pena assistir. Recomendo. Indicado a
Melhor Atriz Coadjuvante – Paprika Steen e Marijana Jankovic no Festival Bodil 2011.
O Diretor
Christoffer Boe, nascido em 1974, em Rungsted ao norte de Copenhagen, é dinamarquês. Entre seus prêmios internacionais, incluem-se o da FIPRESCI, de melhor diretor do ano no San Sebastián International Film Festival e Camera de Ouro no Festival de Cannes em 2003. Ele também é co-fundador da produtora AlphaVille Pictures Copenhagen. Estudou Cinema na Indiana University em Bloomington, nos Estados Unidos e na Escola de Cinema Nacional da Dinamarca. Durante esse tempo dirigiu uma trilogia de curtas-metragens: “Obsessão” (1999), “Virgindade” (2000) e “Ansiedade” (2001), estrelados por Maria Bonnevie e Nikolaj Lie Kaas. Basicamente sobre um jovem obcecado por uma bela mulher e, em seguida, sendo preso em sua própria lógica de que é o amor. “Ansiedade” recebeu o Prix de la Découverte Crítica Francais e foi exibido na Semana da Crítica em 2002. Ele desenvolveu um estilo de “brincar” com a estrutura narrativa. Seu primeiro longa-metragem “Reconstrução”, de 2003, bem-recebido pela crítica em festivais internacionais de cinema. Em 2001, fez 6 episódios (cada 10 minutos) de “Basics” série de TV Kissmeyer. Em 2004, realizou um curta-metragem de que a Europa não existe como parte de “Visions of Europe”, com Cecilie Thomsen e Henning Moritzen, numa Europa vista como um projeto de mídia. Seu quarto longa-metragem, um thriller “Tudo Ficará Bem” foi selecionado para a semana Quinzena dos Diretores, em 2010, no Festival de Cannes. Christoffer Boe é a cabeça da chamada Hr. Boe & Co, um grupo de cineastas que se reuniu a fim de realizar seus filmes. Os outros membros são:Tine Grew Pfeiffer (produtor de cinema), Manuel Alberto Claro (diretor de fotografia), Mikkel EG Nielsen (editor de cinema) e Morten Verde (designer de som).

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