Ficha Técnica
Direção: João Ribeiro
Roteiro: João Ribeiro, Gonçalo Galvão Teles
Elenco: Carlo D’Ursi, Eliote Alex, Adriana Alves, Cândida Bila, Mário Mabjaia, Alberto Magassela, Gilberto Mendes, Cláudia Semedo
Fotografia: José António Loureiro
Música: Omar Sosa
Montagem: Orlando Mesquita
Direção de Arte: João Martins
Produção: Carlo D’Ursi, Antonin Dedet, Luís Galvão Teles
Distribuidora: Videofilmes
Estúdio: Carlo D’Ursi Produzioni / Fado Filmes / Neon Productions / Potenza Producciones / Slate One
Duração: 86 minutos
País: Moçambique / Portugal
Ano: 2010
COTAÇÃO: BOM

A opinião

“O mundo não é o que existe, mas o que acontece”, provérbio de Tizangara. Entender o universo apresentado em “O Último vôo do Flamingo” é necessário o conhecimento prévio de seu autor. Mia Couto, que nasceu António Emílio Leite Couto, é escritor, biólogo, jornalista e filho de portugueses, que emigraram a Moçambique. Em 1983, publicou o seu primeiro livro de poesia, “Raiz de Orvalho”, que inclui poemas contra a propaganda marxista militante. Ele é considerado o escritor mais importante do país e também o mais traduzido. Tenta recriar a língua portuguesa com uma influência moçambicana, utilizando o léxico de várias regiões do país e produzindo um novo modelo de narrativa africana, mesclando ingenuidade, costumes locais, religiosidade espiritual, amadorismo e nostalgia.

A atmosfera gerada pode ser definida por lembranças atemporais, decorrentes de outro universo: o do conto. As histórias permeiam o surrealismo e o realismo fantástico. O filme conserva a sinestesia que o livro causa em quem o lê. Dirigido por João Ribeiro, que estudou cinema em Cuba e teve como mestre o escritor Gabriel Garcia Márquez. O seu roteiro, junto com Gonçalo Galvão Teles, enaltece o naturalismo das interpretações afetadas – recheados de vícios de entonação: às vezes com efeito, por não escalar atores profissionais. Com isso, o diretor deseja imprimir a essência do resgate das características definidoras do povo moçambicano, exagerando na caricatura ao apresentar seus personagens, que vivem numa comunidade. O tom é extremamente pessoal.

O mistério se passa na cidade de Tizangara, em Moçambique de 1994, no período seguinte à guerra civil em que o país esteve mergulhado até o início da década de 1990. Soldados da ONU são designados para realizar uma grande investigação, Massino (Carlo D’Ursi) é o responsável pelo andamento dos trabalhos, mas esbarra no idioma. Seu tradutor, Joaquim (Eliote Alex), vai lhe mostrar que o enigma vai bem alem das palavras. A sinopse aborda lendas, crenças e poderes ocultos – críveis ou não. Esse mistério utiliza do elemento estranheza a fim de direcionar os seus espectadores à trama. Uma comitiva, composta de autoridades militares, analisa os costumes locais. Eles são chamados com o intuito de resolver o caso de soldados que explodem e o único órgão corporal que sobra é o pênis ereto e dotado. “Estrangeiros não conhecem espíritos”, diz-se.

A meretriz, “por méritos próprios” do vilarejo conhece a identidade desses membros, afirmando não ser dos moradores locais. “Membro de estrangeiro, com certeza”, diz. A crítica vem logo adiante. “Morreram milhares de moçambicanos e vocês não se importaram. Agora morrem cinco estrangeiros e é o fim do mundo”, alfineta-se com a sutileza de uma criança que não tem a noção do que se diz. A superioridade estrangeira também é alvo. O militar comporta-se de forma arrogante por causa da patente que conseguiu. Ele, que se chama Massimo (alusão ao termo máximo de nossa língua) quer ter o conhecimento e entendimento sobre tudo. Como disse, a linguagem rebuscada segue o padrão do livro homônimo. São inúmeras as situações surreais. A moça que não deixa sombra, o padre considerado louco, a flutuação, a luz do quarto empoeirado.

“Quero investigar e resolver, não perceber”, diz-se. “Para descobrir a verdade não pergunte às pessoas, pergunte à vida”, ensina Zéca Andorinho a Massimo. O forasteiro vê a fé do lugar e não entende o respeito pela terra e pelos mortos. A história que vive faz Massimo abrir os olhos aos poucos, a cada momento inserido. Há o resgate aos antepassados, aos princípios reais do ser humano, aos valores esquecidos. O grilo fornece a informação, a proteção, a raiva e a salvação. “Toda história tem lados”, diz-se. “Cantar aos flamingos para trazer o sol de volta a esse lado do mundo”, replica-se.

“Estou farto dessas histórias, mitos e lendas”, treplica-se. Os feitiços significam um novo mundo, transpassados por metáforas e parábolas. Esses poderes “espirituais” são utilizados como artifícios para que os poderosos continuem dominando pelo medo do desconhecido. A cumplicidade social é tamanha que gera a letargia alienante da resignação. “Antes de sonhar tem que aprender a dormir”, ensina-se. O final resume o próprio filme. É o desejo fantasioso – porém interno e real – de um novo país. A destruição gera um recomeço utópico, que é transposto pela poesia infiltrada da alma. Concluindo, um filme que passa a mensagem de que o país moçambicano precisa de ajuda, que não pode viver com leis ultrapassadas. As interpretações não conseguem, as ações causam estranheza, o surrealismo vira o próprio protagonista. E tudo isso, propositalmente. Apenas para ser extremamente fiel ao livro. Recomendo.

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O Diretor

“A África é um continente de ampla diversidade e difícil compreensão, Moçambique um reflexo pleno desse cenário contrastante. Inspirado pela imaginação prodigiosa de Mia Couto – um mestre na arte de assimilar formas tradicionais de contar estórias com uma surpreendente inovação ao nível da língua e temáticas abordadas – O Último Voo do Flamingo é um filme que vive e se alimenta desse mesmo contraste, tentando respirar sobre ele um raio de luz, almejando compreender um mundo que tantas vezes nos escapa”, explica o diretor português João Ribeiro, que já havia feito uma trilogia de curtas metragens, baseadas em escritos do mesmo autor (Fogata, O Olhar das Estrelas, Tatana).

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