Ficha Técnica

Direção: Mathieu Amalric
Roteiro: Élodie Van Beuren
Elenco: Mathieu Amalric, Julie Ferrier, Anne Benoît, Damien Odoul, Julie Atlas Muz, Aurélia Petit, Suzanne Ramsey
Fotografia: Christophe Beaucarne
Direção de arte: Stéphane Taillasson
Produção: Yael Fogiel, Laetitia Gonzalez
Distribuidora: Imovision
Estúdio: Les Films du Poisson
Duração: 111 minutos
País: França
Ano: 2010
COTAÇÃO: MUITO BOM

A opinião

“Turnê” é o novo filme do ator francês Mathieu Amalric. O tema escolhido foi o Burlesco, que possui como característica a crítica social. O gênero refere-se a formas que imitam ridicularizando personagens, instituições, costumes, valores por meio de paródia, sátira ou caricatura, incluindo o autor na ideologia dominante e criticando o que for contrário. O burlesco é mais tolerável que a sátira, uma vez que o seu exagero, a distorção de sentidos, a falta de um discurso político ou moralizador, o torna aparentemente mais inofensivo. Mathieu (de “A Questão Humana”, “O Escafandro e a Borboleta”, “Um Conto de Natal”) resolveu vivenciar plenamente o gênero, assim como o faz quando é ator.

Os seus personagens (filmes anteriores) transpassam sofrimento e entrega. Ele não se satisfaz apenas com a introspecção, deseja o mergulho total do espectador à trama. No longa-metragem em questão não poderia ser diferente. A narrativa (de bastidores) transpõem a naturalidade do burlesco num tom quase documental, trabalhando a camera pela observação e pelo cotidiano de ações banais, como acender a luz, que interage com a imagem. Os planos (longos e contemplativos) cinematográficos não são convencionais, passando uma conexão entre o que se vê e o que acontece realmente.

A abertura mostra treinos de Can Can (espécie de Moulin Rouge superado). As “atrizes” ensaiam o número para a turnê. Os shows espalhafatosos e exagerados, com muito brilho e nudez, retratam exatamente o que o gênero burlesco tem que ser: não puritano. Não se pode suavizar a realidade e o seu dia-a-dia. Se a troca de um sutiã é necessária, a cena precisa ser mostrada sem cortes. A “naturalidade” é o principal elemento de contraste de elegância e “sujeira”. O diretor teve êxito o que o “Burlesque” não conseguiu.

O filme com Cher e Christina Aguilera optou pela edição plástica das cenas, as transformando em uma história de conto de fadas, excluindo a vulgaridade sublime, utilizando bem pouco da ideia conceitual das ações impuras. “Turnê” aborda o gênero não original, e sim após 1920, período que passa também a designar o show de strip-tease, chamado de novo burlesco. E conta a história de Joachim (Mathieu Amalric), ex-produtor de televisão de Paris, que partiu aos Estados Unidos, deixando tudo para trás – seus filhos, amigos, inimigos e amantes -, para tentar uma nova vida.

Tempos depois, ele retorna a França, liderando uma trupe burlesca em shows de despedida pelo país. A superioridade das ações transmite a aceitação por parte de seus personagens. Eles são “imperfeitos” para o padrão social, mas não se intimidam, impondo o que são sem questionamentos. Joachim é vintage, retrô, prepotente e egocêntrico. “No Neoburlesco, nos expressamos como mulheres. Os defeitos nos outros são visões dos nossos”, diz-se. A convivência gera brigas aceitáveis, picardias, invejas mesquinhas, como a divisão de uma pizza.

“Naturalidade sem pudor, mas sem agredir”, ensina-se. Cada uma das dançarinas tem o tempo à adaptação. “Leva um tempo para amar o corpo e tirar a roupa”, diz-se. Há honestidade intelectual e pedidos sinceros. Isso humaniza os diálogos. “A sensualidade transforma as imperfeições”, diz entre uma cena em que uma faca é lambida, num misto de poesia e invenção, ao som de “Blue Moon”. Concluindo, um filme excelente que retrata o universo burlesco de forma digna e inteligente, conservando a característica de atuação do seu diretor. Imperdível. Melhor Direção (Mathieu Amalric) no Festival de Cannes 2010.

O Diretor

Mathieu Amalric (Neuilly-sur-Seine, 25 de outubro de 1965) é um ator e cineasta francês. Recebeu o troféu César de melhor ator coadjuvante em 1997 pelo filme Comment je me suis disputé…(ma vie sexuelle), de Arnaud Desplechin, e depois duas vezes o de melhor ator: em 2005, por Rois et Reine, também de Arnaud Desplechin, e em 2008 por O Escafandro e a Borboleta, de Julian Schnabel. Mathieu Amalric é filho de Jacques Amalric, correspondente internacional do jornal Le Monde e editorialista no Libération, e de Nicole Zand, crítica literária no jornal Le Monde. Tem dois filhos com Jeanne Balibar, da qual se separou no início dos anos 2000. Depois de fazer aulas preparatórias literárias, ele começou no cinema como contra-regra. Em 1996, estreou em Diário de um Sedutor, de Danielle Dubroux. No ano seguinte, recebeu o papel de Paul Dedalus em Comment je me suis disputé…(ma vie sexuelle), com o qual despontaria em sua carreira. No fim dos anos 1990, Amalric se impôs como uma das maiores revelações aos atores do cinema francês, interpretando geralmente tipos intelectuais fantásticos, exuberantes ou depressivos.

Como diretor de cinema, Mathieu Amalric fez o filme autobiográfico Tome sua sopa em 1997. Em 2003, apresentou La Chose publique na Quinzena de Realizadores do Festival de Cannes. Em 2008, Mathieu Amalric obteve seu segundo César no papel do jornalista Jean-Dominique Bauby, vítima da síndrome locked-in, no filme O Escafandro e a Borboleta. Sua ausência na Cerimônia do César foi explicada pelo fato de estar gravando no Panamá um papel de vilão em um filme de James Bond.

Filmografia

1997 – Mange Ta Soupe
2001 – Le Stade de Wimbledon
2003 – A Coisa Pública
2009 – Tournée

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