Ficha Técnica

Direção: Ethan Coen, Joel Coen
Roteiro: Charles Portis, Joel Coen, Ethan Coen
Elenco: Matt Damon, Josh Brolin, Jeff Bridges, Barry Pepper, Domhnall Gleeson, Hailee Steinfeld, Elizabeth Marvel, Ed Corbin, Nicholas Sadler, Dakin Matthews, Paul Rae, Joe Stevens
Fotografia: Roger Deakins
Música: Carter Burwell
Direção de arte: Stefan Dechant e Christina Ann Wilson
Figurino: Mary Zophres
Edição: Joel Coen e Ethan Coen
Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Scott Rudin, Steven Spielberg
Distribuidora: Paramount Pictures Brasil
Duração: 110 minutos
País: Estados Unidos
Ano: 2010
COTAÇÃO: BOM

Preâmbulo Explicativo

Há quem diga – a parcela radical – que o gênero western não existe mais. E há os outros – otimistas – que acreditam na sua ressureição. Mas não podemos contra-atacar a máxima popular de que “não se faz mais faroeste como antigamente”. Vira e mexe, por saudosismo ou até mesmo por culpa (pela escassez de público), algum cineasta retira a poeira e realiza a homenagem. O gênero bang-bang possui características especificas que não mais combinam com mundo contemporâneo e atual. Uma delas é a narrativa de espera, geralmente ambientada em lugares inóspitos – datados – e com poucos moradores. É a cidade sem lei com poeira, cavalos, montanhas, revolveres, chapéu e lenço temático. Não há o politicamente correto. O machismo é enaltecido sem críticas e limitações, mas conservando a pureza natural das ações. Não se encontra a inferência, porque a história é contada de forma amarrada, sem “buracos” narrativos. O argumento é simples, mas não simplista. O Vertentes do Cinema participou – e transcreveu AQUI no blog – de um palestra com Rodrigo Fonseca sobre este gênero, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, dentro da série Histórias do Cinema.

Bravura Indômita de 1969

“Indomável; que não é vencido; arrogante, altivo, soberbo”, alguns sinônimos à palavra Indômita do título traduzido. O original “True Gift”, algo como presente (virtude) verdadeira. É um filme que desde o seu nome busca princípios. Podemos absorver outros: amizade, vingança funcionando como elemento de salvação da alma atormentada, a dificuldade de demonstrar o que se sente por causa da cobrança hipócrita dos outros, que pertencem a uma sociedade que seguem regras ditadas. O faroeste funciona reformulando ideias pré-julgadas. Os personagens são retratos, sem máscaras, dos quereres e crenças de cada um. Uns podem viver pelo dinheiro, outros pelo poder, outros por justiça, outros apenas para beber a pinga diária e dormir em uma rede no fundo de uma cabana. Este último é o caso de Rooster Cogburn (John Wayne), um ex-xerife alcoólatra contratado por uma menina de 14 anos (Kim Darby) para vingar a morte de seu pai. Para pegar o criminoso, eles terão de entrar em um território indígena e enfrentar os comparsas do assassino que estão caçando – homens que não vêem problema em matar uma adolescente. O longa proporciona ao espectador vivenciar os costumes sociais da época.

Há uma ingenuidade natural, quase clichê e patética se referenciarmos com o sarcasmo perspicaz de hoje em dia. Os valores eram compreendidos e estimulados. O pai de Mattie Ross foi assassinato por outro. A filha quer vingar o pai. Aceitável. Porém, ela necessita vivenciar a experiência de assistir enforcamentos, de atirar com armas. Assim, a metáfora do crescimento acontece aos poucos, escorregando às vezes na fragilidade e desconhecimento típico da idade. A cena em que o acompanhante tenta tapar os olhos dela para que não veja as mortes demonstra limitações até mesmo na cartilha sem regras deste gênero. Para que se possa captar integralmente este filme é preciso entender e retornar à época apresentada. A fotografia faz jus, mas se comporta como mais uma desse gênero. A música foi Indicada na categoria de melhor canção original do Oscar 1970 e no Globo de Ouro 1970 (True Grit). O diretor Henry Hathaway, com roteiro baseado em livro de Charles Portis, de “A Conquista do Oeste” e “Amor e Ódio na Floresta”, escalou um elenco de peso. John Wayne, Glen Campbell (indicado ao Globo de Ouro de melhor revelação masculina), Kim Darby, Robert Duvall, Jeremy Slate, Dennis Hopper, Alfred Ryder. Não é um dos melhores do faroeste, mas definitivamente um bom filme, que retrata uma época e um gênero.

A opinião

“Bravura Indômita”, de 2010, é a “refilmagem” dirigida pelos Irmãos Coen, sendo a primeira investida no gênero faroeste. Eles iniciaram experimentações com “Onde os fracos não tem vez”, com Javier Barden (vencedor do Oscar de Melhor Ator e indicado ao prêmio deste ano por sua atuação em “Biutiful”). A palavra refilmagem está entre parênteses por levantar a dúvida da definição desta versão, que possuem elementos que podem comprovar o contrário. Uma das características dos diretores é a utilização de elipses cinematográficas. Eles preferem omitir detalhamentos das ações do roteiro. Logo no inicio do filme podemos perceber isso. A personagem Mattie Ross, vivida por Hailee Steinfeld, imprime determinação, inteligência, perspicácia exacerbada e crueldade vingativa em sua narração inicial. Artificio este que mitiga a necessidade de mostrar o que motivou essa consequência. A primeira versão de 1969 explica tudo em detalhes ágeis, mas sem pressa. Mas também, logo no inicio, junto a outra percepção, o espectador hipnotiza-se pela fotografia, misturando a nostalgia com modernidade ao transpassar um brilho diferenciado. Este funciona como base que irá conduzir quem assiste. Retornando a palavra especifica do inicio desta opinião, a dúvida persiste. Não se sabe se é uma refilmagem, cópia ou adaptação. Isso por causa da mudança na ordem dos acontecimentos.

Após a morte do pai, a jovem Mattie Ross (Hailee Steinfeld) contrata, por cem dólares, o xerife “Rooster” Cogburn (Jeff Bridges) para caçar e capturar o assassino. Ela exige fazer parte desta jornada para ter certeza que seu objetivo será alcançado.O argumento (a história básica) é a mesma e até pelos lugares que os personagens passam, mas houve a transformação de qual participante da trama realiza cada ação. Por exemplo, na primeira versão, quem tampa a chaminé é o sargento LaBoef (“o ranger texas”), interpretado por Glen Campbell. Já na versão dos Irmãos, LaBoef é vivido por Matt Damon, mas quem faz o trabalho de abafar a fumaça é a menina, porque em determinado momento, os “adultos” brigam. Diferentemente de outra característica dos Coen, este longa é linear, com começo, meio e fim, sendo este último terminado e não em aberto (como os trabalhos anteriores). Quando digo que o faroeste mudou, quero dizer por causa da necessidade que se tem de fornecer um apelo comercial. Ora ou outra há o “efeito” nos diálogos e acontecimentos. Dessa forma, o melodrama rasga a tela, tentando emocionar de toda forma. Podemos aceitar a ideia se aceitarmos a mentalidade e a definição social dos americanos (público alvo pretendido). A pureza deu lugar a impaciência violenta que gera a amargura sem volta.

Se antes o crescimento ocorreu, neste ele foi intocado. O objetivo realizado. Se a amizade teve algum lugar, agora o esquecimento, o egoísmo e a individualidade pululam na modernidade revisitada. O roteiro transforma tanto as ações da trama que parece ser um outro filme, que se apresenta com dois finais. Um tenta ser mais fiel ao anterior. O outro, a versão original com atestado óbvio de querer não parecer em nada, tende a definições já conhecidas dos Coen. Concluindo, um longa que pode ser refilmagem, adaptação ou novidade, conservando o contexto básico, inserindo experimentações estéticas e narrativas, mudando acontecimentos de ordem e de lugar e ainda assim tentando com toda a força indômita e valente da alma manter as características definidora dos diretores. Um bom filme para que não viu e ou não referenciou o primeiro. Quem viu, inevitavelmente, o considera uma continuação modificada sem explicações maiores. Os que não viram a versão anterior precisam de uma maior atenção a fim de juntar os elementos. O Vertentes assistiu aos dois seguidos. Por conta disso, a cotação é boa somente. Foi filmado em locações no Texas e Novo México, nos Estados Unidos, com orçamento estimado de US$ 38 milhões. Os irmãos Joel e Ethan Coen assinam a edição usando o pseudônimo Roderick Jaynes, sendo este o 17o trabalho de suas carreiras.

Os Diretores

Joel David Coen (29 de novembro de 1954) e Ethan Jesse Coen (21 de setembro de 1957), conhecidos profissionalmente por Irmãos Coen, são cineastas americanos. Eles escrevem, produzem, editam e dirigem seus próprios filmes. Frequentemente alternam os créditos para seus roteiros enquanto compartilham crédito para edição com o pseudônimo Roderick Jaynes. Joel e Ethan cresceram em St.Louis Park, Minnesota, um subúrbio de Minneapolis. Seus pais, Edward e Rena Coen, ambos judeus, foram professores. O pai, um economista na Universidade de Minnesota e a mãe, uma historiadora da arte na St.Cloud State University.Quando eram garotos, Joel economizou dinheiro suficiente cortando gramas para assim comprar uma câmera Vivitar Super-8, e juntos eles refizeram filmes que viam na televisão com um garoto vizinho, Mark Zimering (apelidado de Zeimers), como a estrela. Por exemplo, “The Naked Prey”, (em português, “A prova do leão”, filme de 1966 dirigido por Cornel Wilde) trazia Zeimers no Zâmbia, que também tinha Ethan como um nativo com uma lança. Os irmãos se graduaram em St.Louis Park (MN)em 1973 e 1976.Ambos também se graduaram em Simon’s Rock College of Bard (agora Bard College da Simon’s Rock) em Great Barrington, Massachusetts. Joel então gastou quatro anos no programa universitário da Universidade de Nova York onde realizou um filme-tese de 30 minutos chamado Soundings. O filme mostrava uma mulher fazendo sexo com seu namorado surdo enquanto verbalmente fantasiava ter sexo com o melhor amigo de seu namorado, que a ouvia na sala ao lado. Ethan foi para Universidade de Princeton e conseguiu uma graduação em filosofia em 1979. Sua tese foi um ensaio de 41 páginas intitulado “Two Views of Wittgenstein’s Later Philosophy” (Duas visões da Filosofia Tardia de Wittgenstein). Depois de se formar em Nova Iorque, Joel trabalhou como assistente de produção em algumas produtoras de filmes e vídeos musicais. Ele desenvolveu um gosto particular pela edição de filmes e encontrou Sam Raimi, que estava procurando um assistente de diretor para seu primeiro filme, The Evil Dead (1981). Joe é casado com a atriz Frances McDormand desde 1984. Eles adotaram um filho do Paraguai, de nome Pedro McDormand Coen (Frances e todos seus irmãos são adotados). McDormand estrelou em 6 dos filmes dos irmãos Coen. Ethan é casado com a editora de filmes Tricia Cooke. Ambos os casais vivem em Nova Iorque. Após se graduar em NYU, Joel trabalhou como assistende de produção. Assim, desenvolveu um talento para edição de filmes e conheceu Sam Raimi que estava procurando por um assistente-editor para seu primeiro característico filme The Evil Dead (1981). Em 1984, os irmãos escreveram e dirigiram Blood Simple no primeiro filme que fizeram juntos.Gravado no Texas, o filme fala do conto de um safado, desprezível que contrata um detetive particular para matar sua esposa e o amante dela. Dentro deste filme estão elementos consideráveis que apontam para a futura direção.

Filmografia

2010 – Bravura Indômita (True Grit)
2009 – Um Homem Sério (A Serious Man)
2008 – Queime Depois de Ler (Burn After Reading)
2007 – Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men)
2004 – Matadores de Velhinhas (The Ladykillers)
2003 – O Amor Custa Caro (Intolerable Cruelty)
2001 – O Homem Que Não Estava Lá (The Man Who Wasn’t There)
2000 – E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?)
1998 – O Grande Lebowski (The Big Lebowski)
1996 – Fargo (Fargo)
1994 – Na Roda da Fortuna (The Hudsucker Proxy)
1991 – Barton Fink – Delírios de Hollywood (Barton Fink)
1990 – Ajuste Final (Miller’s Crossing)
1987 – Arizona Nunca Mais (Raising Arizona)
1984 – Gosto de Sangue (Blood Simple)

  • Como fã dos Coen, aguardava com ansiedade esse filme pois não achei muita graça em Um homem sério (achei chato mesmo!). Não me decepcionei, gostei demais. Normalmente, eu tenho pavor de refilmagens, mas a competência dos irmãos conseguiu atualizar o original e criar uma obra forte e vigorosa.
    E outra coisa… eu tento, mas quando me deparo com certos comentários despropositados não consigo me conter. Provavelmente o cidadão acima não deve ter assistido o filme de Henry Hathaway ou não tem noção de sua importância e de sua aura mítica. Meu querido, é impossível escrever um texto sobre essa refilmagem sem comentar ou comparar com o original de 1969. E no seu "comentário" malicioso, não disse se viu e gostou ou não do filme (o que seria o mais importante).
    Fabrício, parabéns pelo texto e parabéns pelo trabalho.

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