Ficha Técnica

Direção: José Padilha
Roteiro: José Padilha, Bráulio Mantovani
Elenco: Wagner Moura, Maria Ribeiro, Irandhir Santos, André Ramiro, Seu Jorge, Milhem Cortaz, Sandro Rocha, Emilio Orciollo Netto.
Fotografia e Camera: Lula Carvalho
Trilha Sonora: Pedro Bromfman
Efeitos Especiais: Bruno Van Zeebroeck, Keith Woulard, Rene Diamante e William Boggs
Som direto: Leandro Lima
Montagem: Daniel Rezende
Edição de som: Alessandro Laroca
Mixagem: Armando Torres Jr.
Produção: Marcos Prado, Malu Miranda
Distribuidora: Zazen Produções Audiovisuais
Estúdio: Zazen Produções
Duração: 118 minutos
País: Brasil
Ano: 2010
COTAÇÃO: EXCELENTE

Apresentação da Sessão

Assistir o filme no cinema Odeon Br, na Cinelândia do Rio de Janeiro, com todos os 591 (lotação do lugar) ingressos vendidos para o horário das 18 horas e 10 minutos, em uma tarde de segunda-feira de feriado, com o público enfrentando uma fila descomunal, protegendo-se da chuva que não dava trégua e aumentando a arrecadação de mais de 3 milhões de espectadores em uma semana, criara um sabor todo especial. Principalmente pela interação das pessoas na sessão com a trama apresentada. Elas aplaudiam, gritavam, comentavam, riam de nervoso, de tensão, de catarse, de sinestesia com o que viam. Mas o que se absorveu foi o silêncio. Em certos momentos nem chegavam a respirar, em outros participavam ativamente como se estivessem dentro da tela do cinema, com seus sacos de pipocas, seus refrigerantes e suas conversas paralelas. Ao sair, deparei-me com uma fila mais surreal do que a sessão anterior, indo até depois da banca de jornal perto do estacionamento subterrâneo.

Preambulo Explicativo

“Tropa de Elite” estourou o seu sucesso pelo marketing e divulgação ilícita. O longa de José Padilha ficou conhecido por ter “vazado” seu conteúdo e ser aproveitado pelos vendedores anônimos não cadastrados. Em qualquer lugar, havia uma “barraquinha” apresentando para a venda o filme do Bope, baseado no livro “A elite da tropa”, escrito pelos policiais André Batista e Rodrigo Pimentel, em parceria com o antropólogo Luiz Eduardo Soares. Foi publicado em 2006 pela Editora Objetiva, revela “subterrâneos explosivos” de uma “cidade partida” e trata questões polêmicas abordando o tema da corrupção na Polícia carioca.

O argumento segue o escritor, tendo Braulio Mantovani como roteirista, despejando as ideias radicais e unilaterais de quem escreveu, já que é a figura real e participativa no sistema relatado. Cria-se o conflito de crenças políticas e sociais, como quem “alimenta” o tráfico, quem financia a violência no Estado. Os “burgueses” na figura de jovens estudantes da Universidade Pontifícia Católica (PUC) são, de uma certa forma, massificados pela máxima que a polícia mata antes e depois pergunta o que fez. Entre aulas sociológicas clichês, repetidas do senso comum não questionador, e ações radicais de policiais – dando um enfoque maior no Batalhão de Operações Especiais (incluindo torturas – como a famosa cena do saco para conseguir informações), a narrativa ganha imposição com a voz debochada e firme de Wagner Moura, que interpreta o Capitão Nascimento. A história gerou bordões e caiu no gosto popular. Gírias tornaram-se usuais.

A ideia persuasiva manipulou a técnica cinematográfica, tendo os tiros, perseguições, socos e pontapés embasando o porquê daquilo tudo. Torce-se pelo mocinho (que é do Bope e tem a autorização para matar quem quer que passe por seu caminho) e excomunga o bandido (traficante, sendo criança ou não). “Tropa de Elite osso duro de roer, pega um pega geral, também vai pegar você”, é a música tema. A vida estressante faz com que Nascimento busque um representante para ocupar o seu lugar. Então ele inicia o processo de recrutamento pouco ortodoxo e extremamente cruel, na maioria das vezes, para “machos” e “fortes” e “não corruptos”, já que “os corruptos não aguentam a pressão”. Termina-se sem esperar pela continuação. Mas ela chega, ainda mais polêmica, menos reacionária e mais inteligente, mostrando soluções reais não só para o Estado, e sim ao país como um todo.

A opinião

“Tropa de Elite 2” conserva a atmosfera do anterior. A narração continua tendo Wagner Moura, agora como Coronel Nascimento. A direção continua a mesma. Mas a forma como se aprofunda o roteiro é diferente, o deixando extremamente inteligente. A polêmica é menos radical. Apresenta-se rebuscada, embasando elementos muito mais políticos. Os inimigos são outros. As constantes críticas referenciam a figuras políticas do sistema estatal. A narrativa de videoclipe – com camera ágil, muitos cortes, quase amadora – comporta-se como observadora, desejando assim incluir o espectador à trama, tendo cameras de segurança, planos detalhes e desfocados como experimentações cinematográficas.

A fotografia granulada e saturada ao brilho permite mergulhar na visceralidade do roteiro. “É na hora da morte que a gente dá valor à vida”, inicia-se com a narração afiada e direta, manipulando o entendimento ao complementar ações futuras. A preparação de elenco de Fátima Toledo funciona como sempre, fornecendo naturalidade, confiabilidade, convencimento realista. Não há encenações. Um dos destaques é o trabalho de Irandhir Santos e a participação rápida, porém excelente, de Seu Jorge. São atores que transformam-se nos seus personagens, com tamanha entrega, que a sensação que se tem é a de se estar vivenciando uma experiência documental. A abertura, com seus créditos iniciais, recorta os melhores momentos do primeiro filme.

Agora que o Capitão Nascimento virou Coronel, os inimigos dele ficaram bem mais perigosos. Dez anos se passaram e Nascimento cresceu na carreira: virou o comandante geral do BOPE e, depois, Sub Secretário de Inteligência. Com isso, o BOPE cresce e o tráfico de drogas começa a passar por maus bocados nas mãos do Coronel. Nessas, políticos e policiais corruptos se envolvem e tornam a vida de Nascimento um perigo.

Nesta continuação, há o discurso “fascista” do narrador, mas também se dá voz aos “intelectualzinhos”. “Em 2081, mais de oitenta por cento da população estará na cadeia”, diz o ativista dos Direitos Humanos e professor de uma universidade sobre o sistema carcerário, focando no presídio Bangu 1, no Rio de Janeiro. Há ideias segmentadas. Alguns argumentos defendem os presos como vítimas da sociedade, outros como escória e causa da própria violência. O debate e a polêmica estão no ar. Talvez por isso o filme esteja arrebatando tantos ingressos. Mesmo privilegiando o pensamento policial, de que bandido bom é bandido morto, há réplica do contexto apresentado. Uma série de abordagens, políticas e sociais, é levantada, fazendo com o que a parcela menos intelectualizada possa se questionar sobre o que acontece ao seu redor.

O diretor José Padilha é um marqueteiro dos bons, porque consegue abordar questões dentro de um viés extremamente comercial (gênero definido de seu filme). “Não quero outro Carandiru aqui. Cadê os Direitos Humanos”, diz-se. “Quem manda na polícia é o Governo”, debate-se. Coronel Nascimento muda a profissão. Sai do Bope e torna-se Subsecretário de Inteligência. “Assim posso enfrentar diretamente o sistema”, ele diz. Com a linguagem usual do meio no qual participa, Nascimento encontra policiais corruptos que impedem que o sistema seja eficaz, eficiente, razoável, transparente, confiável e aceito pelos resultados positivos. Há engessamento das novas perspectivas, criando a máxima de que sempre foi assim e sempre será. Uma ideia que visualiza o equilíbrio estagna-se na utopia. A fantasia segue-se como longínqua e imutável.

O poder, por mínimo que se consiga, gera a prepotência da dominação. É a ditadura paradoxal. Todos sabem que as coisas funcionam desse jeito, porém ninguém possui “armas” para que isso se modifique. “Em tempo de eleição…”, ambienta o individuo que assiste protegido do outro lado da tela do cinema ao caminho que o roteiro deseja atingir. “Milícia é máfia”, sobre corruptos “passando a perna” em outros corruptos. Entender e compreender a figura política brasiliense, é captar e descobrir o porquê (e o inicio) de todo o tema questionado. Vale muito a pena ser visto. Recomendo.

O Diretor

Então diretor do premiado documentário “Ônibus 174”, de 2002, José Padilha supreendeu o mercado cinematográfico nacional e a imprensa ao lançar, em 2007, o maior fenômeno popular do cinema brasileiro desde a Retomada: “Tropa de Elite”. Visto em cópias piratas por mais de 11 milhões de brasileiros com mais de 16 anos antes de estrear nos cinemas (segundo pesquisas do DataFolha e do IBOPE), o longa catapultou
Padilha à posição de um dos mais importantes realizadores brasileiros também na área da ficção. O caminho de polêmica e de prêmios de “Ônibus 174” se repetiu com ainda mais força no Tropa de Elite, que ganhou o Urso de Ouro em Berlim. Além de Onibus 174, Tropa de Elite, e Tropa de Elite 2, Padilha dirigiu também dois outros
documentários: Secrets of the Tribe (2009), que abriu este ano em Sundance; e Garapa (2009), que abriu ano passado em Berlin. Todos os filmes ganharam inúmeros prêmios nacionais e internacionais.

“De certa maneira, Onibus 174 e Tropa de Elite tem a mesma premissa: tentam mostrar como o Estado contribui para a violência urbana administrando muito mal as instituições que deveriam coibi-la, como o sistema prisional, os educandários para pequenos criminosos, e as polícias. Tropa de Elite 2 retoma este mesmo tema, mas agora em um ponto mais perto das instâncias decisórias, mais perto da política. Em Tropa 2, eu não tentei produzir puro entretenimento. Tentei abordar um tema que me é caro. Sem sair de dentro da trama, sem tirar o olho do espectador da ação. Sem pausas para reflexão. Tentei fazer um cinema que não faz inferências morais pelo
espectador, que não lhe diz o que pensar e quando pensar, que não contém pausas deliberadamente construídas para isto. Tentei fazer um cinema que comenta a violência urbana atravéz da sua dramaturgia, e não por meio de metáforas ou de discursos intelectualizados. Não acho que este seja o melhor cinema, o único cinema possível.
Acho apenas que é o cinema adequado para o roteiro que escrevemos, e cujo objetivo foi o de gerar uma uma inquietação no expectador, de lhe proporcionar uma experiência que se transforma em reflexão após o filme, e não necessariamente durante a sua projeção”.

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