A Luz de Helena Ignez contra tempos sombrios

Por Fabricio Duque


Direção: Helena Ignez e Ícaro C. Martins
Roteiro: Original Rogério Sganzerla, roteiro adaptado Helena Ignez
Elenco: Ney Matogrosso, André Guerreiro Lopes, Djin Sganzerla, Bruna Lombardi, Maria Luisa Mendonça, Paulo Goulart, Sandra Coverloni, Simone Spoladore, Arrigo Barnabé, Sérgio Mamberti, Mário Bortolloto, José Mojica Marins, Cacá Carvalho, Duda Mamberti, Otávio III
Fotografia: José Roberto Eliezer
Montagem: Rodrigo Lima
Música: Sinai Sganzerla, Rodrigo Lima, Helena Ignez e Lúcio Branco
Ano: 2010
Duração: 83min


“Luz nas trevas” é o retorno da atmosfera de Rogério Sganzerla, pelo seu roteiro de 3000 páginas condensado em um pouco menos de uma hora e meia. Os filmes do Sganzerla retratam uma época datada e atual, utilizando o discurso político visceral, perspicaz e com frases de efeito. As suas obras evocam a epifania e o surrealismo das ações, com luzes experimentais, interatividade-metalinguagem (a conversa direta com o espectador). No longa em questão, conserva-se este universo, criando-se a nostalgia marginal. Intercalam-se momentos: a vida na prisão descrita pelo bandido da Luz Vermelha e a vida iniciante no crime pelo filho (interpretado pelo excelente ator André Guerreiro Lopes) do preso.

A história de Luz Vermelha, lendário ladrão de São Paulo. Seu filho, o bandido Tudo-ou-Nada, é o fio condutor dessa história política e existencial. Adorado pelas mulheres, este Don Juan de segunda classe comete roubos a fim de desfrutar de uma ampla variedade de prazeres materiais, seguindo os passos de seu pai. Roteiro adaptado de original de Rogério Sganzerla.

Os acontecimentos resgatam a memória deste gênero cinematográfico. Ney Matogrosso vive Jorge, o protagonista do filme referencial, interpretado por Paulo Villaça. Sganzerla tinha apenas 22 anos quando realizou o maior representante do cinema marginal, que abordava a vida de um assaltante de residências de São Paulo, apelidado pela imprensa de “Bandido da Luz Vermelha”, e desconcertava a polícia ao utilizar técnicas peculiares de ação.

Sempre auxiliado por uma lanterna vermelha, ele possuía as vítimas, com longos diálogos e protagonizava fugas ousadas para depois gastar o fruto do roubo de maneira extravagante. Na cidade de Santos se apaixona pela musa Janete Jane (vivida por Helena Ignez, que é a diretora do filme continuação e viúva de Rogério), conhece outros assaltantes, um político corrupto e acaba sendo traído. Perseguido e encurralado, encontra somente uma saída para sua carreira de crimes: o suicídio.

Além de utilizar referências de trechos de filmes do diretor, há também a homenagem a um dos mestres deste gênero, Jean-Luc Godard, com seu “Acossado”. No principal papel feminino, o longa conta com a participação filha da diretora com o cineasta, Djin Sganzerla, que no filme contracena com seu marido, que interpreta Tudo-ou-Nada. “O que se leva dessa vida, é a vida que se leva”, diz-se.

Há um extenso elenco, em um “projeto de família” (dito por Helena) que transpassa um roteiro inteligente, com uma infinidade de citações, que se o espectador piscar, perde o instante. A verborragia é o todo. O excesso conduz o caminho do filme. O bruto e o politicamente incorreto também. O produto final homenageia o diretor, principalmente quando coloca na parede um dos pôsteres de seus filmes “O signo do caos”. É uma experiência única que precisa ser revivida, com o retorno do bandido mais venerado, perpetuado na figura de seu filho. Há ainda um número musical com Ney. Excelente.


A Diretora

Helena Ignez nasceu na Bahia, em 1942. Figura integrante de inúmeros movimentos de vanguarda, foi homenageada por sua obra no 20º Festival de Cinema de Fribourg, na Suíça. Realizou Canção de Baal, A Miss e o Dinossauro – Bastidores da Belair, Reinvenção da Rua. Ícaro Martins nasceu em Santos. Dirigiu, junto com J. A. Garcia, os filmes O Olho Mágico do Amor, Onda Nova e Estrela Nua.

  • Bela resenha. Assisti na Mostra SP, no dia 30, e minha reação foi um mix de fascínio e surpresa. Não esperava um filme tão inventivo e bem acabado, e é importante que se lembre da ousadia e da coragem de sua realizadora e de todos os envolvidos no projeto, afinal, "reinventar" uma continuação do "Bandido", mesmo sendo um roteiro deixado por Sganzerla, seria mexer num vespeiro. Achei o elenco todo excelente, Ney fantástico e surreal na pele de Luz, um show à parte. Ótima fotografia, montagem e trilha sonora da maior competência.

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