Ficha Técnica

Direção: Mário Patrocinio
Roteiro: Mário Patrocinio
Elenco: Seu Zé, Dona Célia, MC Playboy
Fotografia: Pedro Patrocínio
Montagem: Cláudia Silvestre, João Monge, Sérgio Pedro
País: Portugal
Ano: 2010
Duração: 75 minutos

A opinião

“Complexo: Universo paralelo” conta a história da Comunidade “favela”, ou zona de opressão econômica como alguns preferem, Complexo do Alemão. Dois irmãos portugueses resolveram mostrar as suas visões sobre este lugar. O documentário comporta-se livremente, porém unilateral. Fornece voz sem julgamento aos moradores (e aos criminosos). Conversando com o diretor Mário Patrocínio, ele disse que o morro, por ser a sede do Comando Vermelho, atraiu a atenção. Mário optou por sair do estilo básico deste gênero. E saiu mesmo. Principalmente quando enfoca detalhes cotidianos, ambientando o local que será apresentado e expondo os costumes característicos, como o tênis preso nos cabos de iluminação, a criança soltando pipa, o jogo de futebol com a poeira subindo, as pessoas passando, passarinhos, o ar-condicionado de uma casa. É a poesia do material bruto (natural). A trilha sonora, um misto de partes de fados estilizados, reverbera, introspectivamente, a resignação de um lugar e de um povo, já que esses moradores vivem em um mundo próprio (universo paralelo): o deles, com suas regras sociais (complexas para os que não participam desta vivência) únicas e aceitáveis, diferentes da definição de sociedade propriamente dita. As metáforas no título já inferem o tema que será abordado. A fotografia é saturada, com tom contrastado para que a atmosfera apresente-se atemporal, como o sol após o almoço. Inicialmente conta-se o porquê do nome da favela. Depois utiliza o arquivo para mostrar a ação da polícia em questão. O roteiro escolhe o paradoxo. Retrata-se uma vida comum, normal, calma, como qualquer outro lugar. A figura midiática é a vilã sensacionalista. A vertente ideológica unilateral funciona, mas não impede que o espectador questione-se. Os brasileiros convivem com a massificação da violência, acostumando-se. Os estrangeiros olham para esta desigualdade social com curiosidade e novidade, optando pela mesmice do óbvio. “Por que o pobre não pode sonhar?”, pergunta um morador. Nós já entendemos essas pessoas. Elas necessitam de desculpas para viver. A principal é o sentimento vitimado. Há sonhos, sofrimentos, dificuldades e sufocos dos moradores. “Café com farinha”, diz-se sobre ser o único alimento para a sobrevivência. Há o funk “mercenária gosta muito de ir ao shopping”, há o samba com a escola Imperatriz Leopoldinense, há a evangélica como fuga de tudo aquilo.

Há a segurança também. Pode andar com um milhão de reais que ninguém rouba. Só há observadores. Morador protege morador. “Pensava em viver, aguardando a morte vir”, diz um criminoso seguindo para a segunda parte do filme. Neste momento, há o discurso dos traficantes a fim de chocar (o final informa que todos esses depoentes já morreram). “Mato mesmo”, ou “Se a gente já faz isso tudo sem blindado (carro da polícia), imagina com blindado, a gente ia dominar o Rio”. Assim humaniza a figura do criminoso, o deixando ser o que é. Dentro desta política populista, há figura sensata do Sr. Zé, que articula o que pensa mais próximo do problema e da solução. “Deseducado, uma pessoa sem visão”, sobre o lixo que um joga fora em qualquer lugar, criando ratos. O filme é ele. É incrível como as pessoas modificam o próprio ser quando estão sendo filmadas. Elas encenam a própria vida. O diretor escolhe seguir os seus “personagens” por trás, não mostrando seus rostos, assim funciona a mitigação do falso. “Como se pensa com fome?”, resume-se um pouco a diretriz pretendida. Concluindo, é um documentário com uma competente técnica cinematográfica, ágil na montagem, não testando o limite de quem está do outro lado da tela. Com um excelente discurso visionário e perspicaz do “dono da favela”. Alguns disseram que é um filme gringo feito para gringo. Não acho, o que acredito é que falta vivência diária. Sem isso ecoa a ingenuidade.

A Sinopse

Em 2007, dois irmãos portugueses decidem fazer um documentário no Complexo do Alemão, considerado o maior e mais perigoso aglomerado de favelas do Rio de Janeiro. Experimentando o que é acordar e dormir ao som de tiros e testemunhando ações da polícia, buscam dar conta do que é viver como simples habitantes deste universo paralelo, onde o poder do governo não chega. Lá convivem com D. Célia, mãe de oito filhos, crente que tudo é possível; MC Playboy, funkeiro que luta para unir a chamada “cidade partida”; e Seu Zé, presidente da associação dos moradores há mais de trinta anos.

O Diretor (sem óculos)

Nasceu em 1978, em Lisboa. Estudou Economia em Portugal, e Cinema nos EUA. Trabalhou com teatro, televisão e cinema em Lisboa, Paris, São Paulo e Rio de Janeiro. Dirigiu seu primeiro documentário Nhô Djunga, em Cabo Verde. Em 2004, mudou-se para o Brasil trabalhando como jornalista para a RTP Internacional. Em 2005, dirigiu o videoclipe de “Por Amor”, de MC Playboy, no Complexo do Alemão, e deu início à pesquisa para este documentário.

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