Ficha Técnica

Direção: Luciana Bezerra, Cacau Amaral, Rodrigo Felha, Wavá Novais, Manaíra Carneiro, Cadu Barcellos, Luciano Vidigal
Roteiro: Rafael Dragaud (coordenação), José Antônio Silva, Vilson Almeida de Oliveira, Rodrigo Cardozo, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra
Elenco: Paulo José, Luciano Vidigal, Feijão, Marco Ricca, Hugo Carvana, Silvio Guindane, Ruy Guerra
Fotografia: Alexandre Ramos
Música: Guto Graça Mello
Direção de arte: Pedro Paulo de Souza e Rafael Cabeça
Figurino: Inês Salgado
Edição: Quito Ribeiro
Produção:Cacá Diegues e Renata Almeida Magalhães
Estúdio:Luz Mágica Produções / Globo Filmes / Videofilmes / Quanta / TeleImage
Distribuidora: Sony Pictures / RioFilme
Duração: 101 minutos
País: Brasil
Ano: 2010
COTAÇÃO: ENTRE O REGULAR E O BOM

A opinião

Em 1961, cinco jovens cineastas de classe média, oriundos do movimento estudantil universitário, realizaram o filme Cinco Vezes Favela. Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman (que recebeu uma homenagem ao final), Marcos Farias e Miguel Borges eram aqueles jovens que tornaram o filme um marco do cinema moderno brasileiro e um dos fundadores do Cinema Novo. Passados 50 anos, Cinco Vezes Favela, Agora por Nós Mesmos reúne dessa vez jovens cineastas moradores de favelas do Rio de Janeiro, treinados e capacitados a partir de oficinas profissionalizantes de audiovisual, ministradas por grandes nomes do cinema brasileiro. O projeto apresenta cinco filmes de ficção, de cerca de 20 minutos cada um, sobre diferentes aspectos da vida em suas comunidades.

Os roteiros buscam a própria individualidade desses participantes da zona de opressão econômica (ou popularmente chamada Favela – estou sendo politicamente correto, por causa dos dias atuais). Eles são retratados pelo que os mesmos acham de si e de seus próximos. Já na abertura, ou como elemento de passagem de uma história a outra, a pichação torna-se voz aceitável e permitida do morro, para que se possa expressar características dominantes. Leia-se a maioria.

As tramas escolhem a definição de seus personagens. Com isso extrai-se a caricatura dessas pessoas. É uma visão clichê de tudo que já se viu e ou se tem em mente. Perpetua e ratifica-se o que cada um é, limitando o crescimento e a perspectiva de futuro. Eles são transformados pelo meio. A mensagem que passa é a de não salvação. O ilícito e o “jeitinho” errado sempre irão vencer no final das contas. Com fotografia granulada e com imagens ágeis, tenta a introduzir o espectador no que é apresentado. O funk é visto como gênero musical dominante. A preparação de elenco é da Camila Amado.

Houve oficinas por alguns dos principais cineastas do nosso país. Fernando Meirelles, Walter Lima Jr, Walter Salles, entre outros. E a participação de Ruy Guerra em um dos episódios. Basicamente, o elenco e a parte técnica eram de moradores do morro. O filme está sendo considerado por muitos um projeto autoral, por não possuir dinheiro suficiente. Diz-se que eles fizeram o que puderam. Concordo em termos de técnica, extremamente bem trabalhado. Porém em interpretações e pelo próprio argumento em si, tenho sérias discordâncias. Uma delas é a visão de vítimas da sociedade que os moradores possuem de si, e que essa ideia necessita ser difundida. Mostra-se que não há alternativa para o crescimento.

A primeira história, ou o primeiro curta-metragem, é “Fonte de Renda”, de Manaíra Carneiro e Wavá Novais, apresenta uma atmosfera nostálgica, com soul funk musical dos anos setenta. É sobre um jovem que passou em uma universidade. Fará Direito. O que se vê são as dificuldades apresentadas, como a compra da apostila e pelos livros (caros) escolhidos pelos professores. A camera quase “cola” nos personagens, demonstrando assim uma interatividade e cumplicidade. “Meu mano é sinistro”, diz-se. Os diálogos não convencem e acima de tudo há o viés de populismo e de vítima, como já disse.

O protagonista resolve ‘descolar um extra’ envolvendo-se como ‘aviãozinho’ (levando drogas para usuários universitários). Mas não há punição. “Vaza esperto”, diz-se. A mensagem é a mesma: jovens burgueses consumindo entorpecentes e utilizando figuras pertencentes ao morro, por não terem coragem, para a consumação do fato. A camera na mão direciona a um estilo alternativo. “Ser fudido é tirar onda? Então, troféu mendigão pra você”, alfineta-se. Politicamente, não se ‘engole’ o que quer ser passado. Transpassa um mundo sem lei. Ou melhor, um mundo próprio, com regras próprias e com uma sociedade própria. É a propriedade do meio que massifica e se impõe, não sobrando opções para ser diferente.

A segunda história é “Arroz com Feijão”, de Cacau Amaral e Rodrigo Felha, com música de Paulinho da Viola. A camera acompanha e observa. Uma família só come arroz e feijão. O patriarca deseja algo diferente. O filho resolve conseguir. Trabalha, depois é roubado. Faz bicos, mas não dá certo. Então, rouba-se. A trama aborda a ética e os fantasmas sociais. O que se extrai é uma mensagem boba e ingênua, com diálogos superficiais. Um folhetim melodramático que busca afetar o lado sentimental do espectador. As ações banais e normais de um dia-a-dia. Marmita de metal. O aniversário lembrado. “Podia rolar um frango”, diz-se. É a vida de crianças em uma comunidade. Atenção especial para Ruy Guerra como dono do ‘galinheiro’. As tramóias infantis beiram a fantasia e o surrealismo real, conseguindo o riso fácil pelo divertimento. O final surpreende quando opta pelos mínimos princípios que um indivíduo tem que ter.

A terceira história é “Concerto para violino”, de Luciano Vidigal. Com fotografia noturna, granulada e utilizando sombras e contrastes, tendo a luz da água como reflexo, é a escolha mais violenta. Há assaltos, tiros, acordos de traficantes com policiais corruptos. Caminhando junto à trama, uma história de amor e de amizade. A digressão explicativa não convence. Chega a ser patética. “Se vira seu merda”, diz-se. Neste curta, há continuidade da crença de que ninguém escapará. Que viver na favela é para quem aguenta. É uma visão pessimista. Há a sempre violência vocabular, previsível e repetitiva do imaginário popular. Mais uma vez as interpretações não convencem. São exageradas e teatrais. Com trilha sonora clássica, por causa do violino, mostra enquadramentos fora de simetria e opta por detalhes não convencionais, ganhando assim pontos para a parte técnica. Há fogo queimando desafetos. Há o chefe do morro. Os diálogos são ingênuos, fracos, sem substância e aprofundamento. A mensagem que fica: matar para salvar.

A penúltima história é “Deixa voar”, de Cadu Barcellos. Aborda a prática de ‘soltar pipas’ em favelas, na laje das casas não acabadas esteticamente. Este ato apresenta-se como uma catarse infantil. Vive-se a brincadeira, com transposição dos elementos reais e brutos. Há escola pública. Há a recuperação. Há o amor entre jovens. Um acontecimento faz com que o protagonista atravesse o lado proibido. “Não é porque o primo é bandido que ele é também. Tem que aprender a separar as coisas”, diz-se. Há músicas de funk que referenciam o próprio mundo. A dúvida que fica é se o gênero musical copia o meio ou o meio absorve as letras, que se improvisam retratando o dia-a-dia. “Sou teu bucha não”, diz-se quando há o corte de uma pipa alheia. A pipa desperta uma preocupação momentânea. É a alienação de um mundo cruel. É como a preservação de uma fantasia, de um conto de fadas.

A última história é “Acende a luz”, de Luciana Bezerra, a mais criativa e divertida. Aborda o meio, extremamente estereotipado, e retrata o que se pode fazer para fornecer dignidade a um povo em uma das épocas mais importantes: o Natal. A família sobe o morro. Há a figura do funcionário, humanizado, que consertará um poste de luz. “É Natal aqui também”, diz. Os participantes da comunidade riem. Faltou luz, precisa comprar gelo, não fez o cabelo. Não há tempo ruim. Eles estão acostumados com o descaso. Criam a defesa, com a brutalidade natural, para garantir este riso e o direito de aproveitar a virada de ano. Há o ‘sarro’ com as próprias dificuldades. “Se a gente meter porrada nele, ele resolve rapidinho”, resume-se o pensamento coletivo. Com “eu quero apenas”, de Roberto Carlos, a propaganda acontece. “Vai uma Brahma aí?”, diz-se. Outros clichês são apresentados. O homossexual com bolsinha feminina dançando e rebolando. O que faz este curta ser o mais próximo é o questionamento que causa a quem está assistindo. “Eu tô acuado. Vou fazer uma coisa. Pode custar o meu emprego”, sobre o errado que vence no final. O eterno “jeitinho” está de volta. Errado? Descaso social resolve-se com o descaso pelo correto? Quem está com a razão?

Em termos políticos o filme limita o querer ser desses moradores, convivendo com as dificuldades e lutando por cada batalha. Uma por uma. Resolve-se a falta de luz, mas a da água permanece. Briga-se então pela nova. O que se objetivou fazer: reclamar sobre o que acontece lá. Mostrando o exagero para que o Festival de Cannes, exibido fora de competição, tomasse conhecimento. Há falhas. De caráter principalmente. E nem todos deste meio pensam igual, posso ter certeza. Mas que cria o questionamento, isso é fato. Só esse debate já vale o ingresso.

Vencedor de sete prêmios no Festival de Paulínia 2010: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Marcio Vitto), Atriz Coadjuvante (Dila Guerra), Roteiro (Rafael Dragaud), Montagem (Quito Ribeiro) e Trilha Sonora (Guto Graça Melo).


Os Diretores

FONTE DE RENDA

Manaíra Carneiro – 21 anos
A mais jovem do grupo, moradora de Higienópolis, teve sua primeira experiência com cinema em curso do Cinemaneiro, realizado em sua comunidade, em 2002. Terminou a Escola Técnica de Audiovisual e dirigiu o curta-metragem “Café Sem Chantilly”, com o grupo Cinemaneiro. Cursa a faculdade de Estudos Culturais e Mídia na Universidade Federal Fluminense. É integrante da OSCIP Cidadela – Arte, cultura e Cidadania.

Wavá Novais – 25 anos
Morador da Taquara, estuda Cinema na Universidade Estácio de Sá. Já dirigiu três curtas em vídeo. Participou também de algumas produções em sua Universidade e no grupo Cinemaneiro, em diversas áreas, da assistência de direção à produção, sendo a última em parceria com Manaíra Carneiro.


ARROZ COM FEIJÃO

Cacau Amaral – 36 anos
Morador de Caxias e ligado à CUFA (Central Única de Favelas), participou de curta metragens e videoclipes realizados por ela. É um dos realizadores do documentário “Um ano e um dia”, sobre ocupação de terra. Esse filme ganhou prêmios em diferentes festivais, inclusive no de Jovens Realizadores do Mercosul e na Mostra do Filme Livre, em 2005. Além de seu trabalho com cinema, é também escritor e rapper.

Rodrigo Felha – 30 anos
Mora na Cidade de Deus e foi um dos coordenadores do Curso de Audiovisual da CUFA, participando também de suas produções. Foi câmera e trabalhou na produção do documentário “Falcão, meninos do tráfico”. Trabalha com Cacau Amaral desde 2003, quando realizaram juntos o clipe “Ataque Verbal”, da banda Baixada Brothers, liderada por aquele seu parceiro.

CONCERTO PARA VIOLINO

Luciano Vidigal – 29 anos
Há dezenove anos faz cinema e teatro no grupo Nós do Morro, no Vidigal, onde nasceu e mora, e lá se destacou como escritor, diretor e ator. Dirigiu o curta-metragem “Neguinho e Kika”, que ganhou vários prêmios, inclusive o de melhor filme nesta categoria, no Festival de Marselha (França).

DEIXA VOAR

Cadu Barcellos – 22 anos
Integrante do grupo Observatório de Favelas, do Complexo da Maré, onde também mora, participa há tempos das atividades dessa organização e acaba de começar o curso de audiovisual na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Dirigiu um curta para o Canal Futura que será exibido em maio de 2007.

ACENDE A LUZ

Luciana Bezerra – 34 anos
Mora no Vidigal e é uma das coordenadoras do grupo Nós do Morro. Já atuou em diversas áreas do cinema, tais como produção, figurino e direção de arte. Como diretora, realizou alguns curta-metragens, entre os quais “Mina de Fé”, filme premiado com uma Menção Honrosa no Festival do Rio e como melhor curta no Festival de Brasília, ambos em 2004.

A Luz Mágica é uma produtora de cinema que oferece soluções criativas e infra-estrutura completa para desenvolver projetos relacionados à produção audiovisual em todas etapas de realização – da concepção à finalização – e em vários formatos: longas e curtas-metragens de ficção, documentários, institucionais, comerciais e conteúdo para diversas mídias.

Seus sócios, o cineasta Cacá Diegues e a produtora Renata de Almeida Magalhães, têm vasta experiência em projetos que demandem competência logística e mobilidade por todo o Brasil. Alguns exemplos são a favela cenográfica construída especialmente para o filme “Orfeu” e a mobilização das equipes de filmagens com mais de 100 pessoas por mais de 18 mil quilômetros transportando 18 toneladas de equipamento para a realização do filme “Deus é Brasileiro”. A produtora tem em seu portfólio dezenas de prêmios e um histórico de parcerias bem sucedidas com distribuidoras nacionais e internacionais, como a Globo Filmes, Sony, Fox, Warner e Universal. A produtora conta também com a experiência de Koca Machado, profissional ativa e premiada do mercado publicitário.

Tudo isso confere à Luz Mágica um lugar especial no mercado cinematográfico e a diferencia dentro do mercado publicitário e de serviços.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados