Ficha Técnica

Direção: Philippe Godeau
Roteiro: Philippe Godeau, Agnès de Sacy
Elenco: François Cluzet, Mélanie Thierry, Michel Vuillermoz, Anne Consigny, Eric Naggar, Marilyne Canto, Bernard Campan, Lionnel Astier
Fotografia: Jean-Marc Fabre
Produção: Philippe Godeau
Distribuidora: Imovision
Estúdio: Pan Européenne Production, Studio Canal, France 3 Cinéma
Duração: 106 minutos
País: França
Ano: 2009
COTAÇÃO: BOM

A opinião

O diretor Philippe Godeau, estreiando na direção de um longa-metragem, que fez carreira como produtor, escolhe o tema universal para tratar do específico. Hervé (François Cluzet), que lembra o sorriso do Al Pacino, aparentemente tem tudo o que deseja, mas poucos sabem que ele é dependente de álcool. Seus problemas com a bebida fazem com que sua família o interne em uma clínica de reabilitação, onde ele conhece Magali (Mélanie Thierry), uma menina muito mais jovem que ele, por quem se apaixona.

Há elementos de um filme francês típico. Os silêncios, aprofundamentos existenciais dos personagens e a fuga para o campo, que limpa a alma, cura os vícios e realiza o processo de repensar a própria vida. É um lugar que descansa o próprio ser da necessidade de ter que ser o tempo todo. Há ruídos de carros barulhentos, assim cria-se o contraste entre o querer da paz sem correria.

A trama é direta, adaptada da obra de Hervé Chabalier. Ele acorda, faz a mala, entra em um bar, bebe duas taças de vinho branco e pega o trem. O filho percebe. A mulher dorme. A música sinaliza que algo precisa ser mudado, retratando um estágio do indivíduo. Ele vai à clínica. É revistado. Recebe ordens. Ele é tido como um problema, uma má influência inicial. Com o decorrer do longa e seus existencialismos da arte de beber (ser um alcoólatra), o roteiro direciona e aprisiona o espectador em um mundo, que pouco a pouco, será apresentado. Em doses momentâneas. “O que estou fazendo aqui”, ele diz e pensa que aquilo é diferente. “Parece uma seita”, conclui-se subjetivamente.

Então, as consequências do tema escolhido aparecem e transformam o que o espectador está vendo. O discurso auto-ajuda começa, com a sua oração da serenidade, explicações técnicas sobre o que a bebida faz ao organismo, sobre o papel de Deus e se aquilo realmente funciona. Com visão didática, quase médica, às vezes com o intuito de chocar,envereda por um caminho do clichê. Infere-se que a roupagem é francesa, mas a maneira como se faz tende a ser comercial americana.

“Só bebo vodca. Meu pai era viking”, diz-se com humor negro nervoso e culposo. Há flashbacks de quando o personagem principal bebia e o q acontecia. Os “porres” e as vergonhas por que passou. Cai no óbvio, quase no amadorismo, deixando as próximas ações esperadas. Porém nem tudo comete o mesmo erro. Há sequências interessantes que utiliza a omissão silenciosa como indício da própria trama. Assim, retorna-se à inerência do genêro francês. “Negação, um dos estágios deste vício”, diz-se. A abstinência propõe o querer de fuga daquilo, de voltar a vivenciar os sintomas prazerosos e endorfinados do uso da bebida.

Sessões motivacionais. Um ajuda ao outro a se manter sóbrio. O grupo discute e tenta resolver os problemas. Às vezes apenas ouvindo as histórias. “Não tenho ânimo para isso”, sobre a alegria falseada dos outros. Os mais verdadeiros são aqueles que não mascaram o sofrimento. A alegria é uma defesa para enganar as próprias fraquezas. Eles usam a crueldade para poderem ajudar. “Ser jovem não precisa ser idiota”, alfineta-se.

A parte técnica é tradicional. A camera e os seus enquadramentos são comuns, sem nada novo, porém com competência. “Eu não posso salvar o mundo, mas posso me salvar”, diz-se, em um momento interessante do filme entre o conflito em manter-se informado sobre notícias do mundo e a alienação total.

“Jornalistas. É uma profissão de ejaculadores precoces. Apressadinhos”, diz-se com um que de politicamente correto. Há o choque pretendendo ser certo. “Alcoólatras. Bicicletas sem freio”, define-se. Há outros ângulos. Apresenta-se a parte da redenção, em que a mulher e o filho dizem o que pensam dele, sem “freios” e sem verborragia social. “Você é chato. A sua ausência me faz bem”, ela diz. “Você fuma muito. A casa fede”, hora do filho ser sincero.

Há um novo salto. Imagens de arquivo pré-concebidas sobre a África, lembranças de Hervé. Há a humanização do vício. Permite-se a recorrência. Pode-se errar. O detalhe é que cada vez mais se consegue aumentar o tempo em começar uma dose da bebida. “Sou um homem de ação”, sobre cobrir guerras e perder as férias de seu filho. “Beber é uma necessidade”, confessa-se.

“Aqui dentro é real”, sobre a clínica no campo. Há medo do cotidiano e da vida. Novos amigos são perdidos por essa droga. Questiona e aumenta-se a vontade de parar. “Há um inimigo: a memória dos bons tempos que bebia”, conclui-se. O filme retrata a briga deles com eles mesmos. Umas terminando bem, outras nem tanto. Vale a pena assistir por causa do trabalho de um diretor estreante, por utilizar realismo e questionamento sobre o vício, ora o humanizando, ora o criticando e pela interpretação da jovem Magali (incrivelmente inspiradora).

Ganhador de Melhor Atriz Promissora (Mélanie Thierry) e quatro indicações ao Cesar de Ator (François Cluzet), Filme Iniciante (Philippe Godeau), Atriz Coadjuvante (Michel Vuillermoz) e Roteiro Adaptado (Philippe Godeau e Agnès de Sacy).

O Diretor

PHILIPPE GODEAU. Produtor de renome e apaixonado por cinema, obstinado por elevados padrões de qualidade (traz na bagagem filmes de Pialat, Van Dormael e Jean-Pierra Améris), Philippe Godeau decide tardiamente soltar as rédeas de seus desejos e dirige seu primeiro filme “Um novo caminho” (Le dernier pour la route), adaptação da obra de Hervé Chabalier.

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