Ficha Técnica

Direção: Laurent Tirard
Roteiro: Alain Chabat, Laurent Tirard e Grégoire Vigneron, baseado em quadrinhos de René Goscinny e Sempé
Elenco: Maxime Godart, Valérie Lamercier, Kad Merad,Michel, Duchaussoy, Daniel Prévost, Sandrine Kiberlain
Fotografia: Denis Rouden
Música: Klaus Badelt
Edição: Valérie Deseine
Efeitos especiais:Mac Guffe Ligne
Produção: Genevieve Lemal
Estúdio:Wild Bunch / M6 Films / Fidélíté Productions / Mandarin Films / Scope Pictures / Orange Cinéma Séries / Région Wallone
Distribuidora: Imovision
Duração: 91 minutos
País: França
Ano: 2009
COTAÇÃO: MUITO BOM

Apresentação

Quando se é adulto, uma única ação não realizada e ou atrapalhada é a gota d’água ao estágio de desespero. Preste atenção ao meu caso. A opinião deste filme já era para ter ficado pronta semanas atrás. Por duas vezes eu escrevi o texto e por duas vezes o universo conspirou contra a feitura dessas palavras. Esquecimento de salvar o documento, logo após o computador travar. E queda de luz, sem novamente eu ter realizado o salvamento. No momento, escrevo pela terceira vez e a vida mostrou a mim que devo realizar a operação de salvar, de dois em dois segundos. Desta vez, competirei com o mundo paralelo de não opiniões. Neste aspecto sou uma criança grande. Não desisto tão facilmente. É claro que o recomeço demora um pouco mais quando se é maduro. Que paradoxo! Mas a luta continua e a opinião acontecerá. Pausa para salvar o documento.


A opinião

Ser criança é não ter o total entendimento sobre as coisas. Buscam-se respostas. Questiona-se a definição do que se é e do que se tem. Os adultos, complicados em suas ideias e características, vivem a frustração e a melancolia do não retorno à época dos pequenos. A maturidade necessita ser esperta, alerta e defensiva, em contra posição à ingenuidade e ao sentimento de que tudo pode, frutos da pureza e da falta de saber das maldades do mundo.

A infância traduz as características naturais, diretas e inerentes de cada ser desta idade. Há a crueldade nata, que se obtém pelo não conhecimento mundano. Quando o crescimento acontece, isso é mascarado por convenções sociais e regras do politicamente correto. Descobre-se que não se pode dizer tudo e ou perguntar tudo. Há limites para uma respeitável convivência com o próximo. É a conveniência do tratamento. Aprende-se a manipulação estratégica tendo como preço a simplicidade de uma era infantil.

Nicolas (Maxime Godard) é um garoto muito amado pelos pais, que leva uma vida tranquila. Até o dia em ouve uma conversa entre seus pais, que o faz achar que a mãe está grávida. Nicolas entra em desespero e já pensa no pior: ao nascer um irmão, eles deixarão de lhe dar atenção. Para escapar de seu terrível destino, o menino faz campanha para mostrar a seus pais o quanto é indispensável e, por tentar agradá-los demais, acaba cometendo vários tropeços o que faz com eles fiquem enfurecidos com Nicolau. Desesperado, ele muda de tática e, com seus amigos desastrados, bola diversos planos para achar uma solução para seu problema.

“Decapitado? Ser expulso da capital”, diz-se fornecendo ao espectador o tom que a trama apresentará. Os pequenos utilizam a lógica para entender palavras e o próprio mundo, algo novo e complicado demais para eles. Os personagens são definidos como tipos humanizados. Não se critica, apenas retrata o que cada um é. Há o menino que possui dificuldade de aprendizado. Outro que responde rapidamente as perguntas. Há também o valentão. Há tipos clichês, porém são abordados sem o óbvio patético, extraindo a essência intrínseca.

Baseado na história infantil homônima francesa, o longa transpassa os quadrinhos à tela do cinema. A narração, pela visão do protagonista, aprofunda com humor equilibrado. Não há a tentativa de exceder a graça. “Boletim não é divertido para ninguém”, diz-se. As cores fornecem ao espectador um conto lírico e fantasioso, mostrando com precisão as viagens imaginárias de seus personagens. Nicolas absorve conhecimentos. Ele tenta entender as manias dos pais, as suas próprias, a de seus amigos. O pequeno vê o que acha que está vendo. Para a formação desse saber, ele busca aceitar ideias próximas como se fossem suas. E perde-se na própria epifania infantil. Se o pai trata a mãe com carinho, ele logo pensa “Minha mãe vai ter um irmãozinho”, porque foi assim que aconteceu com seu colega de escola.

A música de efeito direciona quem está do outro lado da tela a reviver os momentos simples e puros. A nostalgia é certeira quando se assiste a cena que Nicolas agrada a mãe por medo de ser abandonado na floresta. Infere-se, bem de leve, ao universo de Guilhermo del Toro e seu “Labirinto do Fauno”, porém em gênero comédia de situações.

O exagero da imaginação, transformado em elemento para contar a história, é perfeitamente aceitável por ser real. Por existir. Crianças possuem o surrealismo como aliado. Há o medo (do abandono) e a vulnerabilidade (fugir de casa, dar a volta no quarteirão e retornar) também. As situações extremadas são necessárias para definir o que se mostra. A infância peca pelo exagero. Tudo é mais do que deveria ser. “Esses alunos precisam relaxar”, diz-se. “A vida continua”, filosofa e segue-se em frente de forma quase instantânea. Os conflitos infantis são resolvidos e trabalhados na cabeça dos pequenos como uma simples troca de roupa suja.

O objetivo deles é só um. “Fazer as pessoas rirem quando eu crescer”, finaliza-se. Mas quando se cresce, a percepção muda, o individualismo acomete a alma e a sobrevivência social realiza o processo de fechamento dentro de cada um. Briga-se todo o tempo entre a infância, a maturidade e a velhice.

Vale muito a pena ser visto. As interpretações convencem e emocionam. A fotografia ensolarada traduz a nostalgia dessa época. Há a professora da escola, interpretada por Sandrine Kiberlain, que já realizou um espetacular papel em “Mademoiselle Chambon” (aqui no blog). Recomendo.

O Diretor

Laurent Tirard nasceu em 20/05/1969 na França. Tem 41 anos. Ele cresceu admirando os filmes americanos, como os de Steven Spielberg. Estudou cinema na New York University, trabalhou como leitor de roteiro para a Warner Bros Studios, em seguida, tornou-se jornalista e trabalhou para a revista de cinema francesa Studio por seis anos. Lá, realizou uma série de entrevistas sobre cinema, que foram publicados em um livro sob o título de cineastas “Mister Classe: Aulas Particulares”.

De Woody Allen, David Cronenberg , os irmãos Coen, Lars Von Trier, todos os diretores depararam-se com as mesmas preocupações essenciais: como atores diretos, por exemplo, ou se os ângulos de câmera pré-plano. Em entrevista esses e outros 16 cineastas notáveis, Tirard encontrou afinidades notáveis entre diretores aparentemente desiguais. O livro também foi publicado na França, Canadá , Inglaterra , Itália , Espanha e Brasil .

Em 1997, ele deixou a revista e começou a escrever roteiros para cinema e televisão, dirigiu dois curtas-metragens , em 1999 e 2000. Ele escreveu e dirigiu seu primeiro longa, “The Story of My Life”, em 2004, co-escreveu o enorme sucesso “Prete-moi ta main” (Como se casar e permanecer solteiro) de Alain Chabat , em 2005, em seguida, escreveu e dirigiu seu segundo filme , “Molière” , no ano seguinte.

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