Ficha Técnica

Direção: Sérgio Machado
Roteiro: Sérgio Machado
Elenco: Paulo José, Marieta Severo, Mariana Ximenes, Vladimir Brichta, Flávio Bauraque, Irandhir Santos
Fotografia: Toca Seabra
Trilha Sonora: Beto Villares
Direção de arte:Adrian Cooper
Figurino:Kika Lopes
Edição:Márcio Hashimoto
Produção: Mauricio Andrade Ramos, Walter Salles
Distribuidora: Disney
Estúdio: VideoFilmes / Globo Filmes / Miravista
País: Brasil
Ano: 2010
COTAÇÃO: MUITO BOM

A opinião

Baseado na obra do escritor baiano Jorge Amado, o filme homônimo tenta recriar em imagens a atmosfera das palavras. E consegue pela despretensão, divertimento e pela competente técnica, tanto visual quanto do roteiro. Os personagens são rotulados, porém humanizados. O roteiro descreve a inerência e características de cada um como sendo única. E passa ao espectador a função de julgador. Com isso sentimentos são despertados, ora de repulsa, ora de identificação.

Uma animação apresenta os créditos iniciais. Percebe-se que a narração é feita por um morto, que inicia com imagens do quase final da trama, mas que retorna logo ao começo da historia. “Morto, mas com a boca fechada para não beber água”, diz por estar no oceano, expressando a literatura nordestina de dizer o que pensa por omissão ou verborragia.

Rei dos botecos, bordéis e gafieiras da Bahia, o ex-funcionário público Quincas Berro d’Água (Paulo José) é encontrado morto em sua cama. Inconformados com sua morte, seus melhores amigos “roubam” o corpo e o levam para uma última noite regada a festa e muita bebida. Em meio a mil confusões, Quincas “vive” a sua segunda e definitiva morte, desta vez como sempre sonhou.

A fotografia segue o estilo teatral, com luz incidental, mostrando o que quer. Com sombras, contrastes e brilhos. É uma linguagem exagerada, típica visão de Jorge Amado sobre o seu povo (tipos exagerados). “Se a senhora cai daí, só quebra uma perna”, com sua ironia sincera e cruel. O filme é uma novela, como se estivesse lendo o próprio livro, com diálogos reais e interpretações sensíveis e sólidas. O roteiro respeita o que esta no livro e fornece o tom de desmascarar a hipocrisia de uma sociedade hierarquizada de uma parcela aristocrata pela percepção de vivencia de outro grupo boêmio e dito perdedor. A família de Quincas esconde e manipula o que ele foi. Busca a pompa para justificar e mentir algo que ele não foi. Quincas resolveu largar a vida de casado por não agüentar tanta deturpação do lugar onde vivia e foi vive “com gente perdedora e divertida, como Benedita Boa de Bunda”.

A montagem ágil e com o tempo certo acrescenta sobriedade à trama com seus diálogos ingênuos, diretos, sem o real significado do certo e ou errado. Há a poesia do povo, com seu linguajar próprio e funcional, caracterizando uma parte da população, excluída, mas feliz, que bebe, mas vive intensamente, sem limites, sem medos, que sofre com a alma. “Morrer não é o mistério, mas não coçar a bunda quando pinica”, diz o morto, vivo na imaginação narrada que consegue descrever o dia-a-dia de forma debochada.

A filha (Mariana Ximenes) revive as lembranças do pai. Ao conhecer a vida que o pai levava, fica mais sensibilizada e repensa sua vida, suas convicções e crenças, como a percepção de ser médium em um terreiro de macumba. A infância a domina. Quincas escolheu a simplicidade e a sinceridade. E isto para ela é mais real do que a realidade inventada por falsas massificações de não se sabe mais o porquê. A vantagem da família, como a esposa que esperar receber algo, o genro que começa a se dar bem no trabalho, as “amigas” que se tornam mais amigas. A filha deixa o relógio no bolso dele. “Nunca me importei com a hora, vou me importar depois de morto”, diz.

Dilacera a alma humana. Mostra as idiossincrasias superexpostas. Há uma graça natural, sem querer fazer a piada. “Poesia ruim é melhor que bosta nenhuma”, diz quase em uma linguagem jeca do interior. “Gaiatice sua”, diz-se. “A vida tem seus sinais, basta ser amalucado o suficiente para entender”. Quincas morre no dia de seu aniversário, e a historia lembra muito o filme “Um morto muito louco”. Na família escolhida, ele era chamado de comandante. Há uma cena que esses “perdedores” mudam a roupa que a família “real” vestiu. Quando eles seguram o morto, um deles diz “Caminha Lazaro”, a platéia gargalha. Eles deixam a fantasia transformar a morte em poesia. Eles não querem aceitar a realidade do que esta acontece, preferem acreditar que Quincas esta dormindo ou que mesmo no seu estado, ele se diverte. “Minha vida de morto é mais animada do que muito vivo por aí”, diz.

O filme é tão divertido que o espectador ri o tempo todo. “Vadiagens de Quincas”, diz-se em um mundo submundo, beberrão, de total entrega aos próprios instintos que usa traquinagens e tramóias para a primaria sobrevivência do ser. Em algumas cenas, há a interação com quem esta do outro lado da tela, quando a camera corre junto da ação, e torna o espectador um personagem. O objetivo do pai era transformar a vida da filha. Deixa-la mais leve, mais divertida, sem tanta rabugice das reclamações da mãe. “Melhor coisa de estar morto é que se pode meter o pau em quem quiser”, diz.

Quincas Berro D´agua possui o nome por ter bebido água por engano depois de não se sabe quantos anos. E quando Poe na boca, grita. A filha se transforma. De uma mulher certinha, com pudores para o oposto exagerado disso, com superexposição da sensualidade. Mariana, que a interpreta, está muito bem no papel. Expressa com o olhar as nuances da personagem.

O credito final é dedicado a Zélia Gattai, companheira do escritor. Vale muito a pena assistir. Despretensioso, extremamente divertido, inteligente, com excessos e exageros aceitáveis e necessários. É o típico filme que agrada público e critica. Recomendo.

O Diretor

Nascido em Salvador, em 1968, formou-se em jornalismo e começou a carreira no cinema com a direção de dois documentários em vídeo: Bagunçaço e Três canções indianas, que realizou durante uma viagem de intercâmbio à Índia. Ainda estudante, dirigiu o último trabalho de Grande Otelo, o média-metragem Troca de cabeças (1993).

Foi assistente de direção em Central do Brasil (1998), de Walter Salles, e em O primeiro dia (2000), de Walter Salles e Daniela Thomas, e foi diretor-assistente e co-roteirista de Abril despedaçado (2001), de Walter Salles. Estreou na direção de longa-metragem em 2001 com o documentário Onde a Terra acaba, um retrato do cineasta Mário Peixoto, eleito melhor documentário no Festival do Rio e nos festivais de Havana, Cuba, e Biarritz, França.

Seu primeiro longa-metragem de ficção, Cidade Baixa, foi selecionado para a mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes de 2005 e foi vencedor dos prêmios de melhor filme e melhor atriz (Alice Braga) no Festival do Rio, além de um troféu especial pela atuação dos três protagonistas no Festival de Miami.

Dirigiu ainda um dos episódios do longa-metragem de ficção Três histórias da Bahia (2001), primeiro longa baiano da retomada do cinema brasileiro (os outros episódios são dirigidos por Edyala Iglesias e José Araripe Jr.), e, em 2002, co-dirigiu com Maurício Farias, para a TV Globo, a minissérie Os pastores da noite, baseado na obra de Jorge Amado. Seu trabalho mais recente é o longa Quincas Berro Dágua, também baseado no romance homônimo de Jorge Amado.

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