Ficha Técnica

Direção: José Padilha
Roteiro: José Padilha
Diretor de Fotografia: Lula Carvalho
Camera: Lula Carvalho
Montagem: Felipe Lacerda
Musica: João Nabuco
Editor de Som: Denílson Lelis
Produtor: José Padilha
Produtor Executivo: Marcos Prado
Produtora: Stampede e Zazen Produções
Formato: Beta Digital
Duração: 94 minutos
País: Brasil
Ano: 2009
COTAÇÃO: MUITO BOM


A opinião

Antropologia é a ciência preocupada em estudar o homem e a humanidade de maneira totalitária, ou seja, abrangendo todas as suas dimensões. Preocupa-se em detalhar, tanto quanto possível, os seres humanos que as compõem e com elas se relacionam, seja nos seus aspectos físicos, na sua relação com a natureza, seja na sua especificidade cultural. Resumindo, observar e estudar o habitat natural de um grupo, neste caso os índios.

O diretor José Padilha, cineasta de “Garapa”, “Ônibus 174” e “Tropa de elite”, direciona um debate questionador da atuação de alguns cientistas europeus e norte-americanos que junto aos ianomâmis da Venezuela, em seus primeiros contatos, nos anos 1960 e 1970, é colocada em cheque neste documentário. Um dos primeiros a chegar ao local é o antropólogo Napoleon Chagnon, cujas pesquisas, reunidas no livro “Yanomamö – The Fierce People”, atraíram a atenção mundial para as formas tidas como originais de organização social desse povo. As teorias de Chagnon despertam controvérsias e curiosidade, levando outros antropólogos, como Kenneth Good e Jacques Rizot, e também o geneticista James V. Neel, a desenvolverem seu trabalho na mesma região. Quase 40 anos depois, a intervenção desses intelectuais e seus efeitos sobre as populações ianomâmis venezuelanas são alvo de um acirrado debate.

“Ao invés de tirar minha foto novamente, você tem que me esquecer”, com essa frase o documentário é iniciado com base de produção da BBC, HBO, Avenue B e discute sobre o papel profissional de um antropólogo. A referência ao filme “Os Deuses devem estar loucos” exemplifica muito bem, que conta a historia de uma garrafa de coca-cola que cai do céu em uma aldeia indígena. Essa garrafa modifica os hábitos e costumes do lugar. O objeto é usado para tudo, inclusive como arma, despertando inveja e sensação de poder, estimulando os instintos mais primitivos.

Quando um grupo de estudiosos participa de um determinado grupo, faz com que sejam observados e analisados pelo outro lado, afetando visões e percepções. Com isso a vida indígena não é mais a dos seus ancestrais por causa dessa intervenção da sociedade. Os “colonizadores” fornecem roupas e vacinas para doenças. A vivência não é mais a mesma.

O questionamento do filme apresenta-se pelos depoimentos dos antropólogos (uns contra os outros) e dos índios (as vítimas). Os dados são inseridos. Quarenta por cento já cometeu homicídio por causa de guerras tribais, principalmente por mulheres. “Brigamos e matamos por mulheres”, diz um dos índios. Esse é o inicio da guerra. Porém não sofrem a falta de recursos e fazem os seus próprios instrumentos bélicos. Porém quando um elemento, um machado de aço, se faz conhecido, a necessidade sobre aquele objeto aumento. Eles não querem mais cortar com um de madeira. Outro detalhe que é questionado: se a falta d proteína causa ou não guerra.

Para um ponto de vista funcionar, o outro ser com idéias precisa ser combatido até mesmo por injurias e mentiras. É a auto-sobrevivência pessoal do poder e da razão. “Nós somos etnocêntricos e racistas”, diz um profissional. “Estive em revistas famosas, não me dou créditos acadêmicos”, outro estudioso defende-se por ter casado com uma índia e disse que isso só atrapalhou a sua carreira. “O seu povo é maior do que o meu?”, pergunta à esposa índia, referindo a sua tribo de apenas duzentas pessoas. Fora da tribo, ela sentia-se enclausurada, questionava a vida na cidade. “Eles são bons animais”, dizia-se.

Os ‘ianomâmi’ acreditam que os estrangeiros possam ajuda-los tendo um tratamento médico melhor e sem mortes. Mas o que encontraram foram experiências de maximização do processo reprodutivo, homossexualidade, pedofilia, “atrocidades sexuais”, cobaias para vacinas de sarampo e testes nucleares. “Antropólogos são humanos. Eles erram”, defende-se um “estrangeiro”. “Éramos saudáveis no inicio”, diz um índio, revoltado, indignado e usando roupas.

Cada ser humano para defender-se utiliza as “armas” que possui. Alguns melodramáticos, outros exageros, outros, a prepotência e a superioridade. Outros usam a dúvida. “Os dados estão certos? Nós somos pavões em um show”. Há aqueles que se comparam a Galileu e pedem redenção.

É um típico documentário. Com câmera convencional e imagens de arquivos. Contudo o que se deseja transpassar é o conteúdo da mensagem. Vale muito a pena assistir, por colocar em duvida, fazer pensar o real objetivo de um antropólogo. Será que o que eles estudam não está sendo encenado pelos próprios índios? E incluir técnicas, elementos novos em uma cultura é permitido? “Quem define o limite a ultrapassar?”, finaliza-se.

José Padilha disse que “Esse documentário lida com um assunto que ele ama: a filosofia da ciência e mostrar como eles se perderam no contexto de suas pesquisas amazônicas, em parte por não disporem de metodologias cientificas confiáveis. Não geraram conhecimento, mas uma fogueira das vaidades”.


O Diretor

José Padilha é um cineasta, documentarista e produtor cinematográfico brasileiro com 42 anos de idade. Seu primeiro longa-metragem como diretor, Ônibus 174 (2002) tenta reconstituir um episódio violento do Rio de Janeiro, o seqüestro de um ônibus que terminou em tragédia.
Foi produtor do filme Tanga – Deu no New York Times (1987), dirigido por Henfil, e trabalhou na viabilização financeira de Boca de Ouro , deWalter Avancini. Escreveu e produziu o documentário Os carvoeiros (1999), dirigido por Nigel Noble. Dirigiu e produziu ainda o documentário para TV, Os pantaneiros.

Produziu Estamira, documentário dirigido por Marcos Prado, sobre uma mulher esquizofrênica que há mais de duas décadas trabalha e vive em um aterro sanitário no Rio de Janeiro. Em 2005 iniciou a preparação de Fome, documentário sobre a trajetória de uma família mineira que mostra de que forma os indivíduos lidam com a fome no cotidiano.
Em 2007 lançou Tropa de Elite, sua primeira ficção. O filme, que foi pirateado quase dois meses antes da estréia, ganhou grande repercussão e estima-se que 11 milhões de pessoas tenham assistido ao DVD pirata. Nos cinemas, o filme conquistou o maior número de espectadores no Ranking nacional 2007. Em 15 de fevereiro de 2008 ganhou o Urso de Ouro, em Berlim, pelo seu filme Tropa de Elite. Ele prepara a continuação “Tropa de Elite 2”.

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