Ficha Técnica

Direção: Sylvio Back
Roteiro: Sylvio Back
Diretor de Fotografia: Antonio Luiz Mendes
Câmera: Antonio Luiz Mendes e Haroldo Borges
Som Direto: Juarez Dagoberto
Montagem: Sylvio Back e Paulo Henrique Souza
Musica: Humberto Franceschi e Leon Barg
Edição de Som: Leonardo Gomes
Produtor: Paulo Henrique Souza
Produtor Executivo: Margit Richter
Produtora: Usina de Kyno e Anjo Azul Filmes
Formato: Video
Duração: 155 minutos
País: Brasil
Ano: 2009
COTAÇÃO: BOM

Apresentando a Sessão

Amir Labaki, fundador e diretor geral do Festival, conversava com Sylvio Back e dizia “Nosso público é aqui (no Unibanco Arteplex). Não no CCBB ou Odeon”. Ele agradece aos co-realizadores e apresenta a Premiere Brasileira internacional do filme “O Contestado”.

“Boa noite! Estou tão imbuído da emoção que nem vocês. Eu também não vi o filme na tela grande”, disse o diretor Sylvio Back, com um liso cabelo branco. “Trabalhei cinco anos neste filme. É a retomada de um tema. É um fantasma, um zumbi da historia brasileira. Discutir o tema com uma nova pegada. Refazer o que não fiz em ‘Guerra aos Pelados’. É um trabalho de convencimento aos médiuns, que ficaram 17 horas em transe. É fora do tradicional do documentário”, complementa e deseja boa sessão.

A opinião

Articulando depoimentos de especialistas e historiadores, relatos de sobreviventes, resíduos de memória oral, além da participação de trinta médiuns em transe, este documentário resgata uma das maiores epopéias do país, a Guerra do Contestado (1912-1916). Envolvendo milhares de civis e militares, o episódio conflagrou Paraná e Santa Catarina por questões de fronteira e disputa fundiária, mesclando-se à irrupção de um levante messiânico de grandes proporções. Apesar do vulto que o movimento atingiu, mobilizando em seu combate sucessivas levas de milhares de soldados e até aviões, sendo, por isso, comparável a Canudos, na Bahia, este momento dramático da história brasileira permanece desconhecido e ausente do imaginário nacional.

“Pra consertar, precisa usar o lado ruim”, “O homem precisa passar por uma transformação moral”, “Quando o rico reza é católico, o pobre é fanático”, “O que não se entende é fanatismo”, “Rezar pra que? Rezar e Passar fome”, o inicio apresenta-se como um resumo de frases de efeito que exemplificam o tema que ira ser apresentado, por vários profissionais: historiadores, músicos, folcloristas, jornalistas, escritores em closes próximos e detalhes específicos.

A abertura funciona como um mapa animado e ágil. É um teatro das estrelas com a luz certa no objeto que se deseja mostrar. A guerra santa. “Comunismo é coisa do diabo”, diz-se. Contestava-se o movimento do Contestado. “Morrer era secundário”, dizia-se. Um grupo de médiuns recebia os espíritos destes combatentes, entre jagunços, soldados e caboclos, com câmera fora de foco, criando e concretizando a espiritualidade. O movimento não tinha direção, o acaso era o condutor. “Vai gastar mais para transformar um fiasco em uma epopéia, de transformar um grupo de famintos e descalços em heróis”, dizia-se.

“Não era uma luta por terra. As terras eram devolutas”, dizia-se. Quando chega a modernidade, há um rompimento do Contestado. Eles precisam adaptar-se e a utilizar terra como mercadoria”. Lutar contra o capitalismo. “E por milhões, daríamos até a alma”, a própria venda por dinheiro. “Os imigrantes vinham do processo de civilização. Os caboclos os viam como intrusos”. Começa o jogo entre posse e terra. O objetivo era organizar uma nova sociedade, novas necessidades. O líder religioso José Maria era um líder, por pouco tempo, que na verdade sua fama só aumentou depois de sua morte, que no olhar já sabia o que fazer. Os temas, igualitarismo e comunismo primitivo, estavam em voa e pululavam nas idéias deste grupo. “Fanatismo é ignorância”.

Charges, imagens com símbolos alternativos, dividem um tema do outro, um parágrafo de imagens de outro. O grupo buscava a monarquia. Vida coletiva e festas religiosas. Retorno ao passado, ao bucolismo da simplicidade, a fé e a historia de Carlos Magno. “Se não fossem as meninas médiuns não teria dado a guerra”.

“Em Canudos, morreu o monge, acabou a guerra. Aqui, começou”, dizia-se. Eles esperavam a ressurreição do líder religioso. “O reduto era a purificação. A forma que teriam de reescrever a historia. “Reduto porque eram reduzidas quase um campo de concentração”, diz-se.

Todos são questionados que duvidam de tudo, até dos dados fornecidos pelos historiadores. O filme é longo, possui 155 minutos de duração, o que dá duas horas e 35 minutos. Passa o recado, mas poderia ser menor. Não é convencional mesmo, porque utiliza os médiuns em “ação”, trabalhando. Vale a pena assistir pelo contexto histórico. É uma narrativa lenta, verborrágica e impõe elementos surreais que causam polêmicas.

“A Guerra do Contestado, o primeiro e mais trágico grito pela posse da terra no século XX no Brasil, cujo desenrolar manchou Santa Catarina e o Paraná com sangue e lágrimas, continua pouco estudado e reconhecido nas escolas e universidades e inteiramente desterrado da historiografia e do inconsciente coletivo nacionais. Muitas vezes associo a Canudos (1896 – 1997), dada às raízes messiânicas, sociais e bélicas comuns, embora o viés geopolítico de luta nos sertões catarinenses os distancie, o Contestado soa como um acontecimento fantasma no processo civilizatório brasileiro, em especial, do Sul. O documentário é também uma retomada afetiva, existencial e telúrica de fatos biográficos e históricos incontornáveis”, disse o diretor do filme.

O Diretor

Sylvio Back (Blumenau, 1937) é um cineasta brasileiro filho de imigrantes, que vieram para o Brasil em 1935, o pai era judeu húngaro e a mãe alemã. Além de filmes, tem editados vinte livros – entre poesias, ensaios e os argumentos/roteiros de vários de seus filmes. Com 71 láureas nacionais e internacionais, Sylvio Back é um dos mais premiados cineastas do Brasil. Seu último filme Lost Zweig foi lançado timidamente nos cinemas brasileiros, mas teve ampla participação em festivais, levando vários prêmios. O seu filme mais conhecido é Aleluia Gretchen de 1976. O foco mais corrente em suas produções é o ataque ao patriotismo brasileiro.

“Eu lembro a primeira vez que fui ao cinema. É um momento inesquecível. Foi em Curitiba, em 1941, talvez 42, exibia-se então no Cine Luz, um cinema enorme, belíssimo, com duas plataformas. Fiquei na parte de cima e assisti o filme “Bambi”, de pé. Do Walt Disney. De pé, segurando a mão da minha avó. Não vou dizer que ali eu fui “mordido” pelo cinema. Seria falso. Nos anos 40, em Antonina, onde morávamos, a quinhentos metros do único cinema da cidade, é que me lembro que minha mãe não permitia que fosse ao cinema todas as noites, como era do meu desejo. Ali eu comecei a me encantar muito com o cinema”

“Meu cinema sempre se caracterizou por uma absoluta autonomia de vôo. Não faço hagiografia, ou seja, biografia de santo traço perverso e ideológico de muitos documentários brasileiros que se perfilam reverentes diante dos poderosos. Acho isso vergonhoso, deplorável. Daí, construí este cinema desideologizado, tão iconoclasta, tão desenquadrado, muitas vezes incompreendido, mas que não flerta com o público nem com a crítica. Um cinema absolutamente solitário que pela primeira vez colocou com grandeza cultural o Extremo-sul no mapa audiovisual brasileiro e internacional”

Filmografia

2002 – Lost Zweig
1998 – Cruz e Sousa – o poeta do desterro
1995 – Zweig: A morte em cena (média-metragem)
1995 – Yndio do Brasil
1992 – A babel da luz (curta-metragem)
1990 – Rádio Auriverde
1987 – Guerra do Brasil
1984 – O auto-retrato de Bakun (média-metragem)
1983 – Vida e sangue de polaco (média-metragem)
1982 – A escala do homem (curta-metragem)
1981 – A araucária: memória da extinção (curta-metragem)
1981 – República Guarani
1981 – Jânio 20 anos depois
1980 – Revolução de 30
1980 – Sete quedas (curta-metragem)
1979 – República Guarani (média-metragem)
1978 – Crônica Sulina (média-metragem)
1978 – Um Brasil diferente? (curta-metragem)
1977 – Mulheres guerreiras (média-metragem)
1976 – Teatro Guaíra (curta-metragem)
1976 – Aleluia Gretchen
1974 – O semeador (curta-metragem)
1974 – Curitiba: uma experiência em planejamento urbano (documentário)
1973 – A gaiola de ouro (média-metragem)
1970 – A guerra dos pelados
1969 – Yndio do Brasil
1968 – Lance maior
1966 – Vamos nos vacinar (curta-metragem)
1966 – Festival (curta-metragem)
1966 – A grande feira (curta-metragem)
1965 – Curitiba, amanhã (curta-metragem)
1965 – Os imigrantes (curta-metragem)
1964 – As moradas (média-metragem)

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