Ficha Técnica

Direção: Daniel Filho
Roteiro: Marcos Bernstein
Elenco: Nelson Xavier, Ângelo Antonio, Matheus Costa, Pierre Baitelli, Christiane Torloni, Tony Ramos, Cadu Favero, Paulo Goulart, Pablo Sanábio, Gláucia Rodrigues, Cássio Gabus Mendes, Giovanna Antonelli
Fotografia: Nonato Estrela
Trilha Sonora: Egberto Gismonti
Direção de arte:Cláudio Amaral Peixoto
Figurino: Bia Salgado
Edição:Diana Vasconcellos
Efeitos especiais:O2 Pós Produções / Laboratório Technicolor Creative Services / Labo Cine do Brasil
Produção: Claudia Bejarano, Daniel Filho, Júlio Uchoa
Distribuidora: Downtown Filmes/ Sony Pictures
Estúdio: Lereby Produções
Duração: 125 minutos
País: Brasil
Ano: 2010
COTAÇÃO: MUITO BOM

A opinião

“A historia de um homem não cabe em um filme”, essa frase inicia o novo filme do diretor Daniel Filho. Aborda a biografia do médium brasileiro Chico Xavier. A sua vida espírita apresenta-se por intercalações de cenas do passado e do presente do tempo da trama, baseada no livro As Vidas de Chico Xavier, do jornalista Marcel Souto Maior.

A trajetória do médium, que viveu 92 anos desta vida terrena desenvolvendo importante atividade mediúnica e filantrópica. Fechava os olhos e colocava no papel poemas, crônicas e mensagens. Seus mais de 400 livros psicografados consolaram os vivos, pregaram a paz e estimularam a caridade. Para os admiradores mais fervorosos, foi um santo. Para os descrentes, no mínimo, um personagem intrigante.

Uma entrevista para televisão começa a trajetória não linear deste vidente e sensitivo. A agilidade das câmeras, cortes técnicos para o programa “Pinga Fogo”, que no final percebe-se a releitura ficcional de uma entrevista real. O apresentador conta a sua historia em um breve resumo. Chico nasceu em 1910 em Pedro Leopoldo. “É o maior e mais discutido médium brasileiro”, diz. Esta primeira parte fornece realismo sem o clichê obvio de filmes de gênero. Acrescenta picardias sarcásticas em uma ilha de edição. “Uma vida de busca de paz interior”, expõe-se o desejo de Chico.

A transição ao passado, neste caso a infância, é realizada pelo close em uma imagem da televisão sem cores que vai perdendo a sintonia até os chuviscos característicos de uma transmissão analógica da época. A infância demonstra uma atmosfera seca, crua e direta. A madrinha que o tortura. A visão e conversas com a mãe que já faleceu. “A humildade é uma virtude”, resigna-se. Ele sofre com o não entendimento. “Tem que agüentar”, diz-se. Com o fato de ser diferente, de ver o que os outros não vêem. O tom visceral, sem pudores, como lamber uma figura, exalta idéias atrasadas e alienadas de outros. “Madrinha é uma coisa, madrasta é outra”. O filme não realiza o julgamento, apenas retrata uma vida, com muita competência e técnica.

A incompreensão da igreja “Isso é coisa da cabeça de menino”, para ele e para os outros, rotula as ações do médium como “Coisa do diabo”. Só por ter conversado com um morto e dito ao padre “Troque um terço por um rosário”, o religioso ordena.

O ator Matheus Costa, que faz a primeira parte (1918/1922), é muito talentoso, não deixando seqüelas de sensacionalismo barato e ou manipulações sentimentais. Ele sofre com o não entendimento, com as regras não entendidas da igreja e com o próprio não entender das outras pessoas que só faz aumentar a sua confusão. Ele sabe que veio para um propósito. Para ajudar os outros. Mas não sabe como e o porquê.

A segunda parte (1931/1959)tem a interpretação de Ângelo Antonio, que convence no papel e surpreende no tom que utiliza no personagem. “Ele me trouxe entendimento”, diz sobre Emmanuel, o seu guia espiritual que o ajudou por toda a vida, o conduzindo ao caminho que precisava, à sua missão, dada por Deus. Há uma graça natural do roteiro, sem apelar para o exagerado. O pai leva o filho a uma casa com prostitutas. Quando Chico pega na mão de uma delas, emana a energia e faz com que todos comecem a orar. A sua casa torna-se um local de orações, reuniões e curas espirituais. Ajuda a libertar obsessões, seres que no mundo dos espíritos disseminam o mal por raiva interferindo nas ações humanas.

O longa apresenta o tema de forma sensível com um bom retorno dos diálogos. “Há três regras básicas: disciplina, disciplina e disciplina”, Emmanuel diz e explica como será a vida de Chico se o mesmo aceitar. “Desconfiança e raiva”, então ele responde “Isso eu tive a vida toda”. O conflito da religião, com seu amigo padre, o radicalismo dos que não entendem, o ceticismo não questionado, o medo da missão, sem saber o que irá encontrar, tudo pulula na mente dele.

Tramas paralelas são apresentadas. Como a mãe que perde o filho, que tem como pai o editor do programa que Chico está se apresentando. Ela venera o seu filho, cuida de suas coisas como se estivesse vivo, não o esquece. Sabemos que foi vitima de um acidente, mas os pais não acreditam e não perdoam. Entre o ateísmo e a fé, a trama acontece.

Os diálogos possuem um lirismo realista. “Poesia que só passou por mim que nem vento”, diz. É uma linguagem simples, ingênua, direta, como frases de uma criança que não sabe o certo e ou errado, que não conhece culpa, mascaras e rótulos.

Ele psicografa mensagens. Desde as redações passadas em sua escola até livros. Nunca atribuiu a si alguma autoria. “Tudo vem dos espíritos”. Mensagens de Augusto dos Anjos, Humberto de Campos, cartas familiares. Sofreu processos de fraude, mas nunca desistiu. O objetivo era escrever 30 livros, escreveu 412. A sua mediunidade trabalhava freneticamente a ponto de sair sangue de seus olhos. “Ter dois olhos é um luxo”, dizia o seu guia.

Quando ele escreve sobre questões políticas, o filme dá uma caída. Mas recupera quando o seu irmão esta para falecer. “Você acha mesmo que o seu sofrimento é maior do que o dele?”, pergunta-se. “Confusão danada. Tenho até saudade do garfo da madrinha”, fazendo referencia quando a sua madrinha o espeta com um garfo de cozinha. Há um sarcasmo inteligente. “Jesus foi para a cruz. Você para a revista Cruzeiro”, sobre uma matéria difamatória sobre os feitos de Chico. “Ou você sai da casa ou a gente”. A cobrança da família é responsável por apresentar a terceira parte (1969/1975), que faz de Nelson Xavier o seu interprete. “Recomeçar com as vivencias passadas, mas com mais leveza”, diz. Ele sai sem levar nada, apenas um livro para passar o tempo da viagem em um trem.

Ele desce do veiculo como Nelson Xavier. Não tem como fugir de certos elementos sentimentais. É um filme que naturalmente já estimula isto. E entendendo a vida e os preceitos espíritas, percebemos uma manipulação dos sentimentos, que foi trabalhada um pouco exagerada demais pelo diretor do filme.

As sacadas do roteiro continuam. “Eu só vou desencarnar quando o povo do Brasil estiver feliz”, ele diz e é rebatido “Então é nunca, né?”, causa risos na platéia. Outra humaniza o médium. “Pelo menos a minha aparência me pertence”. Outra é uma turbulência no avião que o faz sentir e expressar medo. “Os ingratos perdem a memória”, diz-se.

“Um espetáculo completo”, é dito pelo editor do programa, Tony Ramos, fazendo um excelente papel de ateu que perdeu a sua fé e transformou-se em um defensivo cético. Quando ao final do programa, Chico entrega uma carta a esse editor e diz “Eu sou como um carteiro. Recebo cartas e as entrego”, o personagem de Tony vê a sua fé se ascender. “Sou ateu, mas acredito que a carta é do meu filho”.

“Acordou de bom humor. Quem te viu, quem te vê”, diz Emmanuel percebendo a alegria de Chico por fazer o bem. E recebe uma resposta “Então, resolve, vai me ajudar ou devo procurar outro guia”. Os dois riem. Ele falece aos 92 anos, em 1992, dez horas depois de um jogo de futebol que fez do Brasil campeão. “O povo estava feliz”, finaliza-se.

Vale a pena ser visto. Emociona, encanta com profissionalismo, competência e técnica. Pode-se ver em cena Gregório Duvivier fazendo um oftalmologista e Charles Fricks um jornalista. Dica: aguarde até os finais dos créditos. Há imagens de arquivo real do verdadeiro Chico Xavier da cena do programa de televisão. Neste momento percebemos como foi bem trabalhada a ficção. Recomendo.

O Diretor

João Carlos Daniel, conhecido como Daniel Filho, (Rio de Janeiro, 30 de setembro de1937) é ator, diretor, produtor de televisão e de cinema.

Filho único do ator e cantor catalão Joan Daniel Ferrer e da atriz argentina María Irma López (conhecida como Mary Daniel), é de família circense. Daniel Filho nasceu no meio artístico e teve contato com grandes nomes do espetáculo brasileiro desde tenra idade. Como ator, chamou a atenção contracenando com Jece Valadão em dois dos mais conhecidos filmes brasileiros da década de 60: Os Cafajestes(1962) e Boca de Ouro(1963).
Trabalhou anos na Rede Globo como ator e diretor. Nessa emissora se tornou um dos mais poderosos executivos, dirigindo varias telenovelas, series e minisséries de sucesso.
Nos anos recentes assumiu o cargo de Diretor Artístico da Globo Filmes e coordena projetos próprios em sua produtora de cinema, a Lereby Produções.

Entre seus projeto recentes merecem destaque os filmes A Partilha, Se eu fosse você e Se Eu Fosse Você 2, maior bilheteria do Cinema de Retomada. Como ator, sua última atuação foi no filme Querido Estranho, de Ricardo Silva e Pinto.

Foi casado com Dorinha Duval, com quem tem uma filha, a também atriz Carla Daniel; com Betty Faria, com quem teve João de Faria Daniel; e com Márcia Couto, de quem se separou no final de 2008. Daniel é avô de Lys, filha de Carla, e dos gêmeos Valentina e João Paulo, e Antônio, filhos de João.

Em novembro de 2007, foi confirmado que Daniel Filho teve em 1949, aos 12 anos, um filho com a então empregada doméstica de sua casa, Aristotelina Macedo, chamado João Carlos Macedo. Aristotelina teve o filho sozinha e, 56 anos depois, João, que se tornou cabeleireiro, obteve o reconhecimento de paternidade. O processo está em andamento e nada foi decidido em relação a esta questão posto que João Carlos Macedo foi adotado e viveu como filho de seu pai adotivo durante 56 anos. Dada à fama e recursos de seu pai biológico, João Carlos decidiu apelar para a justiça para conseguir pensão alimentícia e cuidados médicos por ser portador do vírus da AIDS.

Filmografia

Como ator

2009 – Tempos de paz
2009 – Se eu fosse você 2
2006 – Se eu fosse você (participação especial)
2002 – Querido estranho
1996 – Tieta do agreste
1991 – O Corpo
1990 – Rainha da Sucata
1987 – Romance da Empregada
1987 – Tanga (Deu no New York Times?)
1987 – Um Trem para as Estrelas
1985 – Espelho da Carne
1984 – Quilombo
1983 – Bar Esperança
1981 – O beijo no asfalto
1978 – Chuvas de Verão
1975 – O Casal
1974 – Ana, a libertina
1972 – Roleta Russa
1971 – As quatro chaves mágicas
1971 – Os herdeiros
1970 – O impossível acontece
1969 – A cama ao alcance de todos
1968 – Juventude e ternura
1963 – Marafa (fime inacabado)
1963 – Boca de ouro
1962 – Os cafajestes
1961 – Mulheres e milhões
1961 – Esse Rio que eu amo
1961 – Eu sou o tal
1958 – A grande vedete
1957 – Maluco por mulher
1957 – Tem boi na linha
1956 – Fuzileiro do amor
1955 – Colégio de brotos

Como diretor

2009 – Tempos de Paz
2008 – Se eu fosse você 2
2007 – Primo Basílio
2006 – Muito gelo e dois dedos d’água
2006 – Se eu fosse você
2004 – A dona da história
2001 – A partilha
1983 – O cangaceiro trapalhão
1975 – O casal
1969 – A cama ao alcance de todos
1969 – O impossível acontece
1969 – Pobre príncipe encantado

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