Ficha Técnica

Direção: Park Chan-wook
Roteiro: Seo-Gyeong Jeong, Park Chan-wook, baseado em romance de Émile Zola
Elenco: Kang-ho Song, Mercedes Cabral, Ok-bin Kim, Hae-sook Kim, Ha-kyun Shin, In-hwan Park
Fotografia: Chung-hoon Chung
Trilha Sonora: Young-ook Cho
Produção: Chan-wook Park, Ahn Soo-Hyn
Distribuidora: Paris Filmes
Estúdio: CJ Entertainment / Focus Features / Moho Films / Universal Pictures
Duração: 133 minutos
País: Coréia do Sul
Ano: 2009
COTAÇÃO: MUITO BOM

A opinião

Uma flauta inicia o novo filme de um dos mestres do novo cinema asiático, Park Chan-Wook, com sua preocupação plástica e independente. A sua violência desmedida encontra forma e entendimento na essência da alma humana. A brutalidade da omissão das ações expressa um ser humano inquieto, porem resignado em um mundo atual. O seu cinema representa um fértil terreno de criação. Ele experimentada invenções estéticas de cores, enquadramentos, câmeras e da própria linguagem apresentada.

Sang-Hyun (Kang-ho Song), um padre que acredita que a vida é preciosa, torna-se voluntário de um projeto secreto de desenvolvimento de vacinas para ajudar a salvar vidas a partir de um vírus mortal. Mas, durante o experimento, ele é infectado com o vírus e morre. Quando recebe uma transfusão de sangue desconhecido, milagrosamente, volta à vida, mas o sangue o transforma em um vampiro. Sang-hyun está agora em conflito entre o desejo carnal de sangue e sua fé, que o proíbe de matar. Mas se ele não pode sobreviver sem se alimentar de sangue humano, então, como ele poderá obtê-lo sem recorrer ao assassinato?

O longa caminha entre a idéia surreal e a critica afiada à sociedade e à religião. “Deus vai lembrar disso depois de 30 anos?”, pergunta-se a um padre, não convencional em seus discursos, que responde “Lembrar é a sua especialidade”.

A fotografia satura o brilho, ora escura demais, ora claro demais, ora intercalando os dois termos como uma abertura de um ato de teatro. Os elementos técnicos são simétricos e possuem momento certo para aparecer. “Limite-se a rezar, padre”, diz-se. A câmera interage, participando com o espectador, mostrando a observação do observado. Explicita a metalinguagem quando a imagem é a própria tela de uma câmera filmando em tempo real. “Não olhe para mim. Olhe para câmera”, obriga-se. O filme é seco, direto e sem pudores de mascarar acontecimentos e ações.

“Vê-los morrer, acaba comigo”, diz o padre que se torna uma cobaia humana em uma experiência para que com isso possa ajudar a salvar vidas. Com isso sofre os efeitos colaterais e torna-se um vampiro. Precisa agora sugar o sangue das outras pessoas para que sobreviva. As cenas viscerais e superexpostas, como sangue jorrando e bolhas perebentas no corpo, retratam o tom que o roteiro deseja assumir. As críticas abordam outros temas. Médicos negros com roupas muito brancas.

O padre morre e ressuscita como outra pessoa, por ter usado o sangue alheio em uma transfusão. Com isso cura pessoas e torna-se o “santo enfaixado” no lugar de Jesus Cristo. Ele, um único sobrevivente de 50 ou de 500 pacientes, dependendo do grau de exagero. “Eu não curo. É apenas um efeito psicológico”, diz o novo padre, com a sua racionalidade religiosa, que usa a autoflagelação por ter pensamentos impuros de prazer. As transformações ficam mais evidentes, despertando a super sensibilidade de sons e cores gerando a alucinação momentânea, que são apresentadas em imagens rápidas de vídeo clipes.

A metáfora da necessidade de sangue e de ser um vampiro sugador de pessoas faz referencia claramente aos preceitos religiosos e aos sociais. Cada vez mais as pessoas sugam forças, e no sentido não literal o sangue do próximo, obrigando por compaixão, gentileza ou por ordem mesmo à realização dos seus quereres. A imortalidade do vampiro torna-se o que Cristo se tornou. Será que Jesus cristo foi um vampiro? “Ser vampiros é ter diferentes paladares”, diz-se.

O desespero de alguns, não deixando alienar-se, é amenizado por catarses de correr descalço e ou entregar-se ao sexo não tímido. A cena que o ex-padre levanta a moça e a coloca de novo nos sapatos dele é sutil e genial. “Deus não disse para se preocupar com o que se alimenta”, diz-se. A sede do desejo, do sangue do próximo, do real transforma o individuo em um ser que faz tudo para a realização pessoal. O individualismo da escolha por quem matar justificada para não morrer, no caso do vampiro alguém já morto, questiona o sentido para onde o mundo está indo. Os instintos dos animais são absorvidos com intensidade com os seres que se dizem pensantes, mas que não utilizam o bom pensamento. No ditado popular ‘É cobra comendo cobra’.

Os diálogos dúbios enriquecem ainda mais o roteiro. E a pitada de picardia ingênua e irônica também. “A descarga não funciona. Ahhh, funciona agora”. O desejo expressa-se em sua carga máxima. Sua sexualidade e sensualidade da entregue é latente, recorrente e extasiada. “Eu sou pervertida? As outras mulheres são assim?”, pergunta-se. O filme esta nos detalhes, que os tornam personagens presentes.

Quando a igreja, personificada por um homem, vem a seu caminho, isso o enfraquece. A religião o enfraquece. “É tudo psicológico”, diz-se. “Tudo não passa de uma ilusão”, com um serio sarcasmo. A culpa pelas ações acarreta visões mentais de culpa e de pedras sendo carregadas, como a mesma cruz que cristo teve que percorrer. Ele também teve culpa? No caso do longa, a loucura aparece e desencadeia mais solidão e redenção perante o sol, figura destruidora para os seres das trevas. A tortura para quem torturou, a vingança de mãos frias. O que se quer: “Levar a vida sem refletir”, finaliza-se. Mas a reflexão existe e perpassa para o outro lado da tela do cinema. Somos todos vampiros que podemos andar a luz do sol? Sugamos pessoas? Destruímos vidas jorrando sangue?

Vale muito a pena ser visto. Questiona em grau máximo o ser humano. As criticas são fisgadas com elementos surreais e sobrenaturais. A explicação vem da fantasia de uma historia que precisou da ficção para transmitir a mensagem realista do agora. Recomendo.
Dividiu com Fish Tank o Prêmio do Júri do Festival de Cannes em 2009.

O Diretor

Park Chan-Wook nasceu em 23 de Agosto de 1963 na Coréia do Sul. Formou-se na Sogang University em Filosofia e logo se tornou crítico de cinema e assistente de direção em 1988. Após alguns projetos pequenos, tornou-se conhecido na Coréia por “Joint Security Area”, em 2000. Filme que mostra uma relação de amizade entre soldados da Coréia do Sul e do Norte. Foi um sucesso nas bilheterias locais, batendo até mesmo os filmes estrangeiros. Depois deste projeto, Park resolveu deixar de lado os projetos populares e fazer algo mais pessoal — começa aqui a Trilogia da Vingança. Começando com o filme “Sympathy For Mr. Vengeance”(2002) Park mostrou seu lado violento com uma história sobre o tráfico de órgãos, sequestro e, é claro, vingança. Seguido pelo excelente “Oldboy”(2003), que ganhou o prêmio especial do Júri em Cannes, Park fez de vez seu nome ficar conhecido pelo mundo todo. A Trilogia termina com “Sympathy For Lady Vengeance”(2005), que deixa claro quais são as suas características como diretor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados