Ficha Técnica

Direção: Juan José Campanella
Roteiro: Juan José Campanella, baseado no romance La pregunta de sus ojos de Eduardo Sacheri
Elenco: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago, Javier Godino, Guillermo Francella, José Luis Gioia, Carla Quevedo, Bárbara Palladino
Fotografia: Félix Monti
Trilha Sonora: Federico Jusid e Emilio Kauderer
Produção: Mariela Besuievski
Distribuidora: Europa Filmes
Estúdio: Tornasol Films S.A.
Duração: 127 minutos
País: Argentina
Ano: 2009
COTAÇÃO: EXCELENTE

A opinião

O cinema argentino tem a característica de captar fielmente a alma humana sem julgamentos. Retrata as inerências e as idiossincrasias de cada um. Humanizando as situações e os sentimentos. O diretor Juan José Campanella, aclamado em crítica e público, já foi nomeado e venceu inúmeros prêmios por utilizar esta característica. Ele sensibiliza sem ser clichê, mostra sem ser óbvio. Cria a poesia realista, ora moderna, ora nostálgica, de forma existencialista da resignação de ser o que é e de possuir a percepção de que os outros não irão mudar. Há o respeito ao ser, ao pensar e à defesa das idéias e argumentos pessoais.

Baseado no romance ‘La pregunta de sus ojos’ de Eduardo Sacheri, aborda a vida de Benjamín Espósito (Ricardo Darín), que trabalhou toda sua vida no Tribunal Penal, mas tem um grande sonho que vem atrasando: escrever um romance sobre um assassinato que ocorreu ano de 1974 pelo qual ele foi responsável de investigar. Suas memórias sobre aquele ano transformar sua vida novamente.

A experimentação de luzes, sombras, constrastes, brilhos, posicionamento de cameras, ângulos diferenciados estiliza o universo lúdico e lírico do que está sendo apresentado. O estilo único de manipúlar o espectador gera o encadeamento da trama aos poucos. As peças do quebra-cabeça são juntadas a medida que os acontecimentos vão sendo entrelaçados.

A fantasia da partida e da perda do que se tinha. O medo e a imaturidade de uma época dificultaram o vivenciar o desejo, reprimindo na aceitação as escolhas projetadas. O real e o imaginário confundem-se entre lembranças e o que realmente é. As palavras escritas e as ações cotidianas explicitam o realismo dos momentos. A narração descreve os detalhes, que são tão importantes que se tornam personagens presentes na história. O abstrato toma a forma do concreto e vice-versa.

A intercalação com elementos do futuro que ainda serão abordados estimula a curiosidade logo no ínicio. Com o típico sarcasmo de picardia, ingênua e direta, complementa-se o tom que conduz o roteiro. “Como vai? – Cansado de ser feliz”, dialoga-se. A digressão explicativa de cada elemento cria várias histórias dentro do filme. Todas possuem a ligação com os detalhes. A sutileza do olhar e o gestual dos movimentos afasta o sentimentalismo.

A fotografia, em um misto de noir, nostalgia, tons pastéis, elementos secos, ogros, sem vida, “sem nada”, amaderados, dando ênfase às cores vivas contrastadas, comporta-se como uma imagem sépia e desbotada de um passado que se tenta lembrar. É

o subjetivismo do instante aprisionador de um tribunal de justiça. “Os olhos falam quando você adora algo. Os olhos falam demais. Às vezes é melhor não olhar”, diz-se ao explicar o título do longa e manipular o desvio das reviravoltas.

Um crime principal acontece. O marido sofre e busca o assassino. O perito Criminal Espósito tenta solucionar com a ajuda de uma juíza, por quem está apaixonado. O marido da esposa assassinada diz que tenta não esquecer os detalhes da convivência do seu casamento. É a metáfora do amor sútil e adulta. Por causa disso, o personagem principal necessita escrever: para lembrá-lo e para fazer lembrar aos outros. “Os olhos do marido comovem. Ele não vê o desgaste do cotidiano”, diz-se.

“Um homem pode mudar tudo, menos a sua paixão”, com esta frase divaga sobre a importância de uma paixão na vida de cada um. É este sentimento que impulsiona o viver. É assim que se sobrevive a cada dia. O ‘é’ de cada um é humanizado.

A camera da cena do estádio, de grande angular ao close, desfila do céu a um único personagem e interage com a paixão alheia por algo, com direito a subjetividades de tornar quem assiste um participante daquele cenário. É um exercício magnífico, espetacular, sem cortes. Inova e ‘brinca’ com novas técnicas de utilização da arte cinematográfica. É simplesmente incrível. Essa e a cena da abertura valem cada centavo do ingresso.

“A justiça é a ilha do mundo. Esta nova Argentina não se aprende em Harvard”, critica-se a política, com suas artimanhas e jogos de poder, daquela época referenciada a esta atual que vivemos. Os violinos intensificam o visualizar do que se sente. Externaliza a impotência de não poder lutar contra o que se acha errado.

“Seu lerdo”, diz-se sobre as escolhas erradas. “Romances nem sempre são verossímeis”, complementa quando se pretende mudar o que já era para ter sido. A metalinguagem realiza o trabalho de estabelecer um liminar entre ficção e a realidade. “A única coisa que resta são as recordações. Não pense mais, senão terá mil passados e nenhum futuro. Fique somente com as lembranças”, reflete-se. Mas o segredo dos olhos mente e faz com que razão não dê conta da sensibilidade, em uma paixão que nunca irá nos deixar. Explicita-se entre as lágrimas que o espectador não conseguirá evitar.

Vale muito a pena ser visto. É excelente. Há o casamento entre o sentir e o observar, com os elementos destilados no instante preciso, quase perfeccionista, importando-se com a técnica e o aprofundamento da trama. Recomendo. Indicado a Melhor Filme no Festival de San Sebastián de 2009 e Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010. E vencedor de inúmeros prêmios.

O Diretor

Juan José Campanella nasceu em Buenos Aires, 19 de julho de 1959. É um diretor de cinema argentino nomeado ao Oscar e ganhador de dois prêmios Emmy. Decidiu fazer cinema quando assistiu “All that jazz”. Estudou na ‘Tisch School of the Arts’, nos Estados Unidos. Trabalhou nos seriados “House”, “Lei e Ordem” e “30 Rock”. Escalou 5 vezes Eduardo Blanco, 3 vezes Ricardo Darín e 2 vezes Héctor Alterio.

Filmografia

2009 – O Segredo dos seus olhos (El secreto de sus ojos)
2004 – Clube da Lua (Luna de Avellaneda)
2001 – O Filho da Noiva (El Hijo de la Novia)
1999 – O Mesmo amor, a mesma chuva (El Mismo Amor, la Misma Lluvia)
1997 – Love Walked In
1991 – The Boy Who Cried Bitch
1984 – Victoria 392
1979 – Prioridad nacional

O Ator

Ricardo Darín (Buenos Aires, 16 de janeiro de 1957) é um ator argentino.
É um dos mais populares atores de seus país, tendo atuado por diversos anos em séries de televisão. Seus papéis mais importantes no cinema foram os protagonistas dos filmes “Nove Rainhas” de 2000, “Clube da Lua” de 2004, “O Filho da Noiva” de 2001. “La señal” é sua estréia na direção, ao lado de Martín Hodara. Ricardo Darín assumiu este projeto para homeagear o amigo Eduardo Mignogna. O diretor e roteirista Mignogna morreu quando “La señal” estava em pré-produção.

Filmografia

1979 – La playa del amor
1979 – Juventud sin barreras (1979)
1979 – La carpa del amor (1979)
1980 – La discoteca del amor (1980)
1980 – La canción de Buenos Aires (1980)
1981 – Abierto día y noche (1981)
1983 – El desquite (1983)
1984 – La Rosales (1984)
1986 – Expreso a la emboscada (1986)
1986 – Te amo (1986)
1986 – The Stranger (inédita – 1986)
1987 – Revancha de un amigo (1987)
1993 – Perdido por perdido (1993)
1998 – El faro (1998)
1999 – El mismo amor, la misma lluvia (O mesmo amor, a mesma chuva)
2000 – Nueve Reinas (Nove Rainhas)
2001 – El hijo de la novia (O Filho da Noiva)
2001 – La fuga (A Fuga)
2002 – Kamchatka
2002 – Samy y yo (Samy e eu)
2004 – Luna de Avellaneda (Clube da Lua)
2005 – El aura
2006 – La educación de las hadas (A educação das fadas)
2007 – XXY
2007 – La señal (O Sinal) – Direção
2007 – Abrígate
2008 – Amorosa soledad
2009 – O Segredo dos seus olhos
2009 – El Baile de la Victoria

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