Ficha Técnica

Direção e Roteiro: Chaim Litewski
Produção:Chaim Litewski, José Carlos Asbeg, Jorge José de Melo e Ojvind Kyro
Elenco: Fernando Henrique Cardoso, Celso Amorim, Jarbas Passarinho, Erasmo Dias, Dom Paulo Evaristo Arns
Música:Lucas Marcier e Rodrigo Marçal
Edição:Pedro Asbeg
Efeitos especiais:Renato Vilarouca e Rico Vilarouca
Distribuidora:Imovision
Duração: 92 min
País: Brasil
Ano: 2009
COTAÇÃO: EXCELENTE

A opinião

O documentário, dirigido pelo jornalista Chaim Litewski, é crescente e explicativo. Utiliza os elementos da edição para agradar visualmente a história a contar. O perfil do personagem principal, Henning Albert Boilesen, dinamarquês naturalizado brasileiro, é apresentado por seu currículo vitae, por sua professora escolar, do que gostava (futebol, mulatas, caipirinha, Chico Buarque), traçando a vertente a ser seguida. “Ele pensava como a gente, então tinha a afinidade”, diz-se uma das tantas entrevistas do longa. A narrativa didática, embalado por sambas parecidos com os de Simonal, expõe o lado do industrial, nascido em Copenhagem, como apaixonado pelo Brasil desordenado e miscegenado e muito parecido com o ator Kirk Douglas.

O ínicio do filme mostra a rua em São Paulo em em homenagem a Henning, fazendo perguntas de quem seria o ganhador do nome da passagem, recebendo o retorno do não conhecimento. As pessoas entrevistadas respondiam repetindo o que se encontrava na placa “Administrador de empresas”. “Vontade férrea de vencer competindo livremente”, diz-se. Até aí, um cidadão comum que morreu “friamente” assassinado.

A mudança de paradigmas no desenvolver da trama apresenta, gradualmente elementos contraditórios. Nesse momento entendemos a sinopse que revela as ligações de Henning Albert Boilesen (1916-1971), presidente do famoso grupo Ultra, da Ultragaz, com a ditadura militar, ajudando no financiamento da repressão violenta e também a sua participação na criação da temível Oban – Operação Bandeirante, espécie de pedra fundamental do Doi-Codi. Heninng expõe o lado sombrio, cruel e extremamente sádico com os comunistas, que acreditava serem uma ameaça ao progresso do Brasil, ao assistir a sessões de tortura, até mesmo delas participar. João Goulart tornou-se inimigo por seguir Lênin, um esquerdista nato da revolução russa. “Fica-se atrás, nunca exposto”, dizia quando saia da clandestinidade para ganhar prêmios honorários.

As imagens de arquivo de tortura e ou repressão contrastam com as músicas nacionalistas de salvação do nosso país. Há trechos dos filmes “Batismo de Sangue”, “Pra Frente Brasil”, “Lamarca”, do diário de Yuri Ferreira e da peça “Sonata Tropical”. O documentário é uma aula de história. Coloca em foco a Operação Bandeirante, OBAN, (a mais radical das repressões), o AI-5 que manteria a revolução de 64. “Durou muito tempo e atrapalhou o Brasil”, diz o nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O presidente Nixon, dos Estados Unidos, ajudou com a CIA, contra a cubanização.Os esquemas entre a Petrobras e a Ultragás favoreciam as negociações. Até o jornal a Folha de São Paulo colaborou com a “democracia da tortura”.

“Misterioso o limite da complexidade humana, tamanho paradoxo”, diz-se conduzindo ao desprezível do administrador, quando fornece a informação de que Henning inventou uma máquina, chamada Pianola, de dar choques quando adicionada a um teclado. Mas perdeu a batalha quando subestimou os seus inimigos. Lamarca pediu o “levantamento” (sequestro, não necessariamente assassinato) de Boilesen. Mas no caso dele não foi só sequestro. Morreu fuzilado com o rosto na sarjeta. “Só quem viveu aquela época, e sentiu o sofrimento, pode entender a alegria da morte de Boilensen”, “Ele era um monstro”, diz-se, e completamenta-se por FHC “Um a menos do outro lado”.

O Diretor

“O grande problema de qualquer pesquisador é saber quando devemos parar, quando devemos botar um ponto final na pesquisa”.

“Acho que a primeira vez que ouvi falar de Henning Boilesen foi em 1968. Suponho que devo tê-lo visto na televisão, possivelmente na [extinta TV] Tupi. Fiquei intrigado por dois fatos: primeiro, ele era o diretor da Ultragaz (minha família consumia – como tantos milhões de famílias brasileiras – gás liquefeito entregue, religiosamente, todas as semanas em caminhões repletos de botijões). O segundo, é que, curiosamente, Boilesen nasceu na Dinamarca (que para mim sempre foi modelo de sociedade e população liberal).”

“Lembro-me perfeitamente do dia em que foi assassinado, 15 de abril de 1971. Nessa época já se falava à boca pequena que Boilesen ajudava a financiar a Operação Bandeirante [centro de investigação e tortura em São Paulo comandado pelo coronel Ulstra]. Decidi escrever alguma coisa a respeito da vida dele, pois me lembro de recortar e guardar obituários que saíram nos jornais e revistas. Soube, anos mais tarde, da publicação de um livro sobre Boilesen na Dinamarca.”

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