A opinião

O indivíduo sonâmbulo pode ser entendido por aquele que não tem nexo e que age automaticamente, desconexamente. Então infere-se que a terra do título é algo sem nexo, que quem passa por ela age sem pensar muito, repetindo movimentos, açoes e idéias. O próprio cartaz vende o filme com a frase “O sonho faz andar a estrada”. Percebe-se a vertente que a diretora resolveu seguir. O longa é lírico e mágico de forma natural, como uma fábula realista humanizando o ser humano. A linguagem é poética como se fossem pronunciadas por crianças, ainda com a inocência crivada na alma. O filme pode ser apresentado como político-social “gosto de homem que não tem raça”. Com o sofrimento resignado, porém revoltado “Não aguento mais viver entre os mortos”. Há duas histórias que se interceptam. O roteiro é inteligente, simples e extremamente competente com seus diálogos metafóricos. Um homem ensina a uma criança em crescimento a dura realidade da vida. O mais velho passa ser uma pessoa rabugenta e ensina bruscamente o que o mais novo precisa aprender. “Não meta o coração em nada”, diz. O garoto rebate com uma ingênua esperança típica de sua idade. Não só nos diálogos, a metafóra explica o que é díficil ser explicado em ações surreais e fantasiosas. É um road-movie que lembra os filmes de Manoel de Oliveira. “Não se pode ter a riqueza sem os devidos sacrifícios”, outra frase é dita. “Não é bom ensinar alguém a sonhar”, exemplica o sentimento de que nada irá mudar. O ponto alto do filme é a linguagem e o que é dito nos diálogos. Mas a forma como é dito, pela intensidade das interpretações que são exageradas, não convence, transmitindo um momento encenado e artificial. Provavelmente esta produção foi realizada de forma rápida, sem muitas tomadas. Só isso explica porque os mortos carborizados no início do longa mexem-se. Há muitas falhas e repetições, cansando o espectador. Porém, como já disse, o roteiro é muito bom e já vale a ida ao cinema. Termino citando “Não somos os dois a andar, é a estrada”. Absorva o máximo que puder e leia o livro. Recomendo.

Ficha Técnica

Direção: Teresa Prata
Roteiro: Teresa Prata (adaptação do Livro de Mia Couto)
Elenco: Nick Lauro Teresa … Muidinga; Aladino Jasse … Tuahir; Ernesto Lemos Macuacua … Siqueleto; Filimone Meigos … Joseldo Bastante; Tânia Adelino … Filomeninha; Erónia Malate … Mulher na Estação; Hélio Fumo … Kindzu; Ilda Gonzalez … Farida; Laura Soveral … D. Virgínia; Ana Magaia … Tia Euzinha
Fotografia: Dominique Gentil
Montagem: Paulo Rebelo e Jacques Witta
Diretores de Elento: Ana Magaia e Patrícia Vasconcelos
País: Moçambique e Portugal
Ano:2007

A Sinopse

Adaptado do livro do mesmo nome da autoria de Mia Couto, “Terra Sonâmbula” é um road movie em Moçambique. Duas histórias separadas pela guerra e unidas por um diário. Entre a Guerra Civil e as histórias de um diário perdido, Muidinga e Tuahir são os heróis deste filme. Muidinga lê no diário, encontrado ao lado de um cadáver, a história de uma mulher que encerrada num navio procura o filho. Muidinga convence-se que é o menino procurado no diário. Vai então ao encontro da mulher, com Tuahir, um velho seco e cheio de histórias que o trata como filho. A viagem é dura: eles movem-se entre refugiados em estado de delírio. Para não enlouquecerem, têm-se um ao outro. A estrada por onde caminham, como sonâmbulos, é mágica: entende os seus desejos e move-os de um lugar a outro, não os deixando morrer enquanto eles não alcançarem o tão sonhado mar. Os dias são de fuga, dos guerrilheiros e da fome, as noites são de busca de uma história de aventuras.

A Diretora

Teresa Prata passou a infância em Moçambique e a adolescência em Minas Gerais e no Rio de Janeiro (Brasil), onde estudou piano. Graduada em Biologia em Coimbra (Portugal), fez curso de teatro – integrando o grupo CITAC durante seis anos – e trabalhou em rádio e numa galeria de arte. Formou-se em Roteiro e Direção em Berlim. Nesta época, realizou vídeos experimentais e instalações, além de diversos curtas-metragens. Destaque para “Leopoldo” e “Partem Tão Tristes, os Tristes”, ambos de 1999. Este é o seu primeiro longa-metragem.

O Escritor

Mia Couto (Beira, Moçambique, 1955) é um dos escritores moçambicanos mais conhecidos no estrangeiro. António Emílio Leite Couto ganhou o nome Mia do irmãozinho que não conseguia dizer “Emílio”. Segundo o próprio autor a utilização deste apelido tem ver com sua paixão pelos gatos e desde pequeno dizia a sua família que queria ser um deles.Nasceu na Beira, a segunda cidade de Moçambique, em 1955. Ele disse uma vez que não tinha uma “terra-mãe” – tinha uma “água-mãe”, referindo-se à tendência daquela cidade baixa e localizada à beira do Oceano Índico para ficar inundada.Iniciou o curso de Medicina ao mesmo tempo que se iniciava no jornalismo e abandonou aquele curso para se dedicar a tempo inteiro à segunda ocupação. Foi director da Agência de Informação de Moçambique e mais tarde tirou o curso de Biologia, profissão que exerce até agora. Foi recentemente entrevistado pela revista ISTOÉ.

Bibliografia

Estreou-se no prelo com um livro de Poesia – Raiz de Orvalho, publicado em 1983. Mas já antes tinha sido antologiado por outro dos grandes poetas moçambicanos, Orlando Mendes (outro biólogo), em 1980, numa edição do Instituto Nacional do Livro e do Disco, resultante duma palestra na Organização Nacional dos Jornalistas (actual Sindicato), intitulada “Sobre Literatura Moçambicana”.
Em 1999, a Editorial Caminho (que publica em Portugal as obras de Mia) relançou Raiz de Orvalho e outros poemas que, em 2001 teve sua 3ª edição.
Depois, estreou-se nos contos e numa nova maneira de falar – ou “falinventar” – português, que continua a ser o seu “ex-libris”. Para além disso, publicou em livros, algumas das suas crónicas, que continuam a ser coluna num dos semanários publicados em Maputo, capital de Moçambique.
Muitos dos livros estão traduzidos em alemão, francês, catalão, inglês e italiano.
Em 1999, Mia Couto recebeu o Prémio Vergílio Ferreira, pelo conjunto da sua obra.
Em 2007 recebeu o Prémio União Latina de Literaturas Românicas.
Mesmo ano foi o vencedor do prêmio Zaffari, Bourbon de Literatura, na Jornada Nacional de Literatura.
O escritor Mia Couto foi escolhido para ocupar, na categoria de Sócio Correspondente, a Cadeira número 5, da Academia Brasileira de Letras que tem por Patrono Dom Francisco de Sousa. Sua eleição deu-se em 1998, sendo ali o sexto ocupante.

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