A opinião

É um filme sobre Armando Diego Maradona, ídolo argentino do futebol. Mas não é só sobre o esporte. Ultrapassa o jogo e aprofunda os acontecimentos históricos. Agrega as histórias de toda época vivido pelo jogador. Assim como todo filme de Kusturica, há uma estranheza e um deboche natural no ar. A narração é mostrada por um humor sarcástico, totalmente referencial e indecifrável, mas que alfineta e diz o que quer, sem que o outro, que está sendo entrevistado se dê conta disso. O documentário aborda a vida, as manias, as idolatrias, as idiossincrasias, a família e o ditos políticos de Maradona. “Podemos fazer um bom filme”, o diretor diz quase no ínicio do filme. E é retrucado por alguém da equipe “Você acha?”. Extremamente dúbio. “Pareço um paparazzo esperando ele”, fala o realizador quando demonstra irritação por o astro ser tão mimado, fazer-se de famoso, estourado, prepotente e pretensioso. Há animações toscas e bizarras de personalidades da política inglesa e americana, assim o diretor quis grifar os pensamentos do astro futebolístico. O longa possui passagens surreais e é muito feliz quando faz isso. Exemplo é o Templo Maradonista, uma igreja que utiliza o jogador como Deus, com músicas próprias e versões sacras. “Maradona lembra um Deus, é para os deuses tudo é perdoado”, diz-se. Kusturica dança conforme a música, imitando as piadas do entrevistado com uma ironia astuta, com uma crueldade mascarada, direta e afiada. A narrativa também tem imagens de arquivo e referências aos próprios filmes do diretor. Este consegue extrair a verdade interna do personagem em questão. “Sou um ator, porque vivo a vida como quero viver”, com essa frase, realiza uma necropsia de sentimentos, o expondo com a ingenuidade da crença passional, não questionável, inerente aos argentinos, que não pensam antes de falar, com uma emoção exacerbada quase infantil. Emerge a figura patética, não racional e alienada de um mundo que o massifica. “Quanto mais vejo gente da Europa e da América do Sul, mais gosto de Cuba”, diz. Kusturica sabe fazer cinema. Ele é extremamente competente. Morde e assopra, quando intercala vitórias e escândalos da ‘figura’ do seu material. Essa ‘figura’ é humanizada. A carência do jogador por ser amado e idolatrado vem a tona. O contexto geral ganha muitos pontos, mesmo com alguns estágios cansativos, que não são poucos. O filme merece ser visto. Recomendo.

Ficha Técnica

Direção:Emir Kusturica
Roteiro:Emir Kusturica
Elenco:Diego Maradona, Lionel Messi, Ciro Ferrara, Manu Chao
Fotografia:Rodrigo Pulpeiro Vega
Montagem:Svetolik Zajc
Música:Stribor Kusturica
País:Espanha / França
Ano:2008

A Sinopse

Saído da pobreza, Diego Maradona tornou-se o maior ídolo do esporte argentino: um artista em campo e inspiração para milhões de pessoas. A esta ascensão espetacular, sucedeu-se uma trágica queda, marcada pelas drogas. A vida deste homem, que conquistou o mundo, desceu aos infernos e ressurgiu brilhantemente, é contada sob a ótica de um de seus mais fervorosos fãs, Emir Kusturica. Estabelecendo um elo íntimo com o jogador, o cineasta traça sua homenagem percorrendo os lugares mais importantes da vida do craque, conversando com amigos próximos e explorando materiais de arquivo.

O Diretor

Emir Kusturica é cineasta e músico sérvio cirílico. Seu nome é pronunciado “Êmir Kustúritsa”. Nasceu em Sarajevo, na atual Bosnia-Herzegovina, 24 de novembro de 1954. Com uma expressiva sequência de trabalhos internacionalmente aclamados, Kusturica é visto como um dos mais criativos diretores de cinema dos anos oitenta e noventa.

Começou a fazer cinema ainda no colégio, dirigindo filmes independentes. Alguns destes foram premiados em festivais nacionais amadores. Formou-se em Cinema na Academia Milos Forman, em Praga, entre 1973 e 1977. Brilhante aluno, estudou com o diretor checo Otakar Vavra. Kusturica ganhou o primeiro prémio do Festival Internacional de Cinema Estudantil de Karlovy-Vary, no mesmo país, com o seu projeto final de graduação, a curta-metragem em preto-e-branco Guernica (1978).

De volta, trabalhou para a TV e dirigiu, entre outros, As Noivas Estão Chegando (1979) e Bar Titanic (1980), que lhe valeu o primeiro prêmio no Festival do Telefilme de Portoroz (Eslovênia). Sua longa de estréia no cinema ‘Você se Lembra de Dolly Bell?’ (1981), tornou-se um sucesso de crítica internacional e foi premiado em Veneza com o Leão de Ouro para diretores estreantes.

Em 1985, ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes, com o filme Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios.Para além de cineasta, Emir Kusturica é também músico, tendo um projeto musical denominado Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra, possuindo um estilo de gypsy rock muito próprio. Em 2005, foi presidente do júri do Festival de Cannes.

Filmografia

2007 – Promise Me This
2004 – A vida é um milagre
2001 – Super 8 (filme) [documentário]
1998 – Gato preto, gato branco
1995 – Underground – Mentiras de Guerra
1993 – Arizona Dream
1988 – O Tempo dos Ciganos
1985 – Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios
1981 – Você se lembra de Dolly Bell?
1980 – Bar Titanic
1979 – As noivas estão chegando
1978 – Guernica [curta-metragem]

Os Prêmios

1978 – Guernica [Primeiro Prêmio do Festival de Cinema Karlovy Vary]
1981 – Você se lembra de Dolly Bell? [Leão de Ouro Festival de Veneza]
1985 – Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios [Palma de Ouro Festival de Cannes] [Indicação ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro Oscar]
1989 – Time of Gypsies [Melhor Diretor Festival de Cannes]
1993 – Arizona Dream [Urso de Prata Festival de Berlim]
1995 – Underground [Palma de Ouro Festival de Cannes]

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