A opinião

O filme teria tudo para ser um fracasso: baixo orçamento, atores não conhecidos, filmado na Johannesburg, a maioria dos diálogos é em outro idioma que não o inglês. E ainda possui narrativa existencial e ou de ação ‘blockbuster’ de ficção científica, mesmo com toda a produção do aclamado Peter Jackson. Mas não deu errado. Pelo contrário, é um sucesso arrebatador por qualquer cinema que é exibido. O diamante do filme, o que é lapidado, é o argumento. Esqueça as cenas de perseguições, correrias, de violência gratuita e óbvia. Prenda-se na mensagem que o longa transmite. Aborda o a xenofobia e o preconceito social. É sobre estrangeiros, que o próprio dicionário define como alienígenas. São indivíduos de uma outra cultura necessitando viver regras impostas por decidir fixar residência em um outro lugar. No caso do filme são de outro planeta. O objetivo é levar a um questionamento metafórico. Substitua os ‘ets’ por mexicanos nos Estados Unidos e a história seria a mesma. A hipocrisia deste último utiliza o oportunismo social para conseguir vantagens pessoais com o dito politicamente correto, que mascara a verdade interna de cada um. A narrativa é quase um documentário ficcional, com entrevistas e bastidores metalinguísticos. Utilizam-se diálogos misturando o deboche patético, a imbecialidade inerente ao ser humano e superficialidade dos instantes. É totalmente proposital, pois assim conseguimos aprofundar as nossas próprias percepções e conclusões. É uma crítica a todos que só se importam com os próprios egos, problemas, lucros e riquezas. O individualismo é exacerbado, quase crônico. A camera dilacera as fragilidades humanas, utilizando todos os elementos, como por exemplo, sangue explodindo na tela e com movimentos nervosos e desesperados, quase um personagem fugitivo. Há uma artificialidade nas interpretações, podendo ser, positivamente, argumentado pela presença constante das imagens captadas por uma camera aceita, previamente, dentro da história. Quando um alienígena contamina um humano, este modifica a sua maneira de pensar, tornando-se aos poucos, com um tempo determinado, o outro. Não há certo ou errado. Mocinho ou bandido. Não se julga. Apenas descreve o que cada um faz por causa do próprio querer subjetivo. A violência é explicada com violência. E em certos momentos, esquecemos da ética massificada pela sociedade, e imploramos pelos atos violentos. Em qualquer cultura, de outro país e ou do mesmo, as pessoas são iguais e cometem as mesmas ações. Com ou sem dinheiro. Com ou sem poder. Os argumentos para que se consiga o que quer são infinitos e não possuem limites quado desejamos algo. Se for o outro, é errado, mas no nosso caso, é sobrevivência. Somos picaretas, frios, calculistas e passionais quando temos que ser. Quando um soldado está fazendo o seu trabalho, diz “Ainda sou pago por isso, adoro ver bichinhos (camarões em relação ao povo nigeriano) morrer”. Há uma humanização dos aliens. “Aqui é cheio de moleques, por isso os abortamos”, diz-se. Quando pessoas alienadas socialmente revoltam-se, transformam-se em monstros. “Cultura humana é lixo”, diz um alien sem carne no corpo, só ossos, totalmente desnutrido. O mundo vê essas criaturas como nojentas e desnecessárias. O filme é sensacional, brilhante, muito interessante, atual e obrigatório de ser visto. Uma metáfora da desigualdade social e sobre o poder de cada um para mudar isso. Corra ao cinema e o assista o mais rápido possível! É excelente. Recomendo.

Ficha Técnica

Direção:Neill Blomkamp
Roteiro:Neill Blomkamp, Terri Tatchell
Elenco:Sharlto Copley, Jason Cope, David James
Fotografia:Trent Opaloch
Montagem:Julian Clarke
Música:Clinton Shorter
País:Nova Zelândia / África do Sul
Ano:2009

A Sinopse

Trinta anos atrás, alienígenas desembarcaram na Terra. As criaturas foram deixadas no Distrito 9, uma casa isolada na África do Sul, enquanto os líderes mundiais decidiam o que fazer. Desde então, nada aconteceu. Hoje, os aliens estão sob controle da MNU, uma empresa privada que pretende lucrar com suas poderosas armas. Mas para ativá-las é necessário DNA alienígena. Por isso, quando Wikus van der Merwe, um funcionário da MNU, contrai um vírus que transforma seu código genético, ele passa a ser o mais valioso ser humano do mundo. Fugido e sozinho, só existe um lugar para ele: o Distrito 9.

O Diretor

Nasceu na África do Sul em 1979. Aos 16 anos, começou a trabalhar com animação, tendo estudado depois Animação 3D e Efeitos Visuais na Escola de Cinema de Vancouver. Trabalhou como animador em diversas séries de televisão, como Stargate SG-1, Dark Angel e Smallville. Fez uma série de comerciais, conquistando reconhecimento pelos filmes passados no universo do jogo Halo. Em 2005, dirigiu o curta Alive in Joburg. Este é seu primeiro longa-metragem.

O Ator

Sharlto Copley nasceu em 27 de novembro de 1973. Ele é um produtor e ator sul-africano. Estudou em Johannesburg.

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