Epifania sensorial, projetada e experimentada

Por Fabricio Duque


O road-movie começa. É o percorrer do próprio caminho para descobrir o desconhecido do novo. Ambienta com uma descrição existencialista, mas não prepotente ou arrogante e sim no sentido de desabafo. A narração é uma poesia cética, real e com uma pureza de esperança. É também sincera, simples e suja. Sem meio termos, sem arrumação. Diz o que se pensa e pronto. Versa sem hipocrisias, tornando os tipos do caminho nem um pouco estereotipados. Pelo contrário, os humaniza sem julgar entre o certo e ou errado. A câmera desestabiliza, numa fotografia experimental, esteticamente nostálgica, a trajetória, deixando claro que não se sabe qual reta seguir. E a repetição das mesmas passagens reitera a monotonia da paisagem que entende-se como a acomodação do ser humano. O que se busca é uma vida lazer. Os diretores experimentam tudo e todos e deixam livre para criar, sem os subterfúgios da perfeição do momento, os instantes únicos e tão comuns para quem os vive. Um dos diretores, Karim, disse que no começo ninguém tinha cabelos brancos e que uma noite calorosa de apresentação do filme ninguém esquece. O outro, Marcelo, disse que não sabe fazer cinema e que estava muito feliz por não saber. Complementou dizendo que por onde passou era o quintal de casa. Era carne seca com caldo de cana. E estava nervoso. Senhores diretores, cabelo branco demonstra trabalho e a noite foi sim calorosa. As pessoas riam e incomodavam-se com forma direta do que estava sendo dito. Em relação ao tema de não saber fazer cinema, depende do que considera a arte de fazer filmes. Resumindo tudo, sem ser piegas e puxa-saco, o que eu posso dizer é que uma pequena obra-prima foi projetada em nossas sensações.


José Renato, geólogo, 35 anos, é enviado para uma pesquisa de campo durante a qual terá que atravessar o Sertão – região semi desértica, situada no Nordeste do Brasil. O objetivo de sua pesquisa é avaliar o possível percurso de um canal que será construído a partir do desvio das águas do único rio caudaloso da região. No decorrer da viagem, percebe-se que há algo comum entre José Renato e os lugares por onde ele passa: o vazio, uma sensação de abandono, de isolamento. Mas, ele decide ir em frente, seguir viagem, na esperança que a travessia transmute seus sentimentos.


 


Ficha Técnica

Direção: Marcelo Gomes e Karim Aïnouz
Roteiro: Karim Aïnouz e Marcelo Gomes
Elenco: Irandhir Santos
Fotografia: Heloisa Passos
Montagem: Karen Harley
Música:
País: Brasil / PE
Ano: 2009


Os Diretores
Marcelo Gomes nasceu em 1962, em Pernambuco. Formou-se em Cinema em Bristol e dirigiu uma série de curtas-metragens. Seu primeiro longa, Cinema, Aspirinas e Urubus, estreou no Festival de Cannes e recebeu mais de 50 prêmios pelo mundo.
Karim Aïnouz nasceu em 1966, no Ceará. Seu primeiro longa-metragem, Madame Satã, também estreou em Cannes. Céu de Suely, o segundo, estreou em Veneza. Recentemente concluiu a série de televisão Alice.

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