ARTIGO
Por Fabricio Duque
Quando as luzes se apagam, parece que entramos em um outro universo. Sonhamos, rimos, choramos. Os sentimentos são tão variados que algumas vezes até somos surpreendidos. O Cinema tem essa magia. De fazer acontecer algo dentro de uma sala escura, com ou sem som digital, com ou sem poltronas reclináveis, com ou sem lugar para bolsas e pipocas. Quem ama a Sétima Arte, assim mesmo em maiúsculas, sabe o que realmente acontece quando quase quatrocentos filmes imperam a Cidade Maravilhosa. O festival do Rio tem esse compromisso: ofertar os filmes e nós, pobres e sem tempo cinéfilos, a loucura de se programar entre tantos bons e tantos ruins. Para esse povo, não há “movies” chatos ou entediantes. O que há é uma ótima fotografia, uma atuação clichê, uma edição que é digna de elogios ou críticas. Vemos além. Não nos limitamos. Procuramos documentários palestinos, seguimos com películas chinesas, discutimos os indianos, não deixamos de prestigiar nossos diretores e atores e não esquecemos os outros países, com outros diretores favoritos e atores, conceituados ou não. Escolhemos. E o que fazemos sempre. Temos sorte na maior parte das vezes, em outra não. Mas nunca nos queixamos, pois a cada vez que sentamos numa poltrona aveludada ou não, respiramos e vivemos as dores e as alegrias do outro. Absorvemos e damos voz àqueles que precisam expressar o silêncio ou as neuroses de um mundo contemporâneo ultra-surreal o qual vivemos. Dependemos de horários, ingressos, de burlar um pouco a vida a nossa volta. Mas não somos infelizes. É um mundo que escolhemos. Desculpem-me, preciso retificar isto neste momento: já que, lógico, foi o próprio Cinema que nos escolheu, abduziu-se de nosso ser, no melhor sentido da palavra. Não negamos a nossa futilidade, nem tampouco a nossa subjetividade. Vemos, também, o que gostamos. O que temos mais afinidades. Mas, em hipótese nenhuma deixamos de ter com os outros. Brigamos com desavisados que sussurram alto no cinema, ou se alimentam de lanches “fast-food” ou amendoim, ou pipoca. Nada contra. Mas, este é o Festival do Rio. Esperamos o ano inteiro por ele. Nós programamos. Reivindicamos férias neste período, os que trabalham, deixamos de fazer provas ou teses, os estudantes. Vivenciamos a nossa veia cinematográfica pulsando meses antes da maratona. Poucos entendem. Muitos acham loucura ver infinitos filmes por dia, programados como um “ciborgue” ou comendo um sanduíche, fora do santuário, em menos de cinco minutos. Tudo bem. Pode ser loucura. Podemos dizer que exacerbamos nosso desejo obsessivo mais intenso. Mas, digo como conhecedor de causa, que preferimos isso a viver sem isso. Não seriamos nada, ou quase nada, sem a influência e a dominação deste meio presente em nossas existências mundanas. O precisar é quase uma lei. O ver é quase uma ordem. E assistir, totalmente envolto pelo filme, é uma obrigação. Que seguimos sem questionar, sem nos revoltar, sem sermos subversivos. Lutamos para que possamos estar entre os escolhidos; e permitimos que os que fazem as pérolas ou os momentos pensantes para bem ou para mal nos conduza pela vida eterna de felicidade ou do ódio, dependendo do tema apresentado. Cinema não é, está sendo. Vamos continuar a vê-los, a sentir inveja de quem conseguiu assistir aquele filme, cujo título vai demorar a entrar em cartaz, a comer pouco ou a não comer. Lembrar que precisamos permanecer com a vela acesa sempre. Pois é o nosso estilo de vida. Seguimos nesta direção, conduzindo nossos sonhos, vontades, fantasias, decepções, e entendendo que conservar este desejo é o que nos faz vivos, porque somos dependentes deste vício de luz apagada e tela acesa. E idiossincrasias precisam ser alimentadas. Com doses cavalares ou meros tarjas pretas. Foto: Divulgação do Filme “Corra Lola Corra”. 

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